Ttulo: A Doura de um beijo.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: Wanted: a Wedding Ring.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

BARBARA CARTLAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo

A Doura de um Beijo

Aterrorizada, Ina se debatia, lutando para se libertar
dos braos do repugnante gro-duque Ivor.
com uma fora que ignorava possuir, livrou-se e
correu para o convs do iate. Em seu desespero, sabia
que s o visconde poderia salv-la.
Mas ser que um homem maravilhoso como o
visconde Colt iria se incomodar com a sobrinha de
uma atriz de teatro?
Ento, quando o gro-duque estava prestes a agarrla, Ina subiu na
amurada e jogou-se no mar!

Nova Cultural
A Doura de um Beijo

Todas as mulheres se apaixonavam pelo fascinante visconde Colt!

os navios espanhis em busca de glrias e tesouros.
O capito Rodney, jovem corsrio a servio da rainha, fremente de orgulho
e emoo, escuta o rangido familiar das roldanas correndo cleres pelas
grossas amuradas. Madeiras chiam, velas comeam a enfonar-se
galhardamente. O poderoso galeo vai a caminho da Amrica Central, terra
de ndios, piratas, ouro e prata. No cais apinhado, milhares de gritos de
adeus. Os marinheiros respondem: "Adeus, terra querida! Riquezas e 
aventuras  vista! Viva o Gavio do Mar!"

BARBARA CARTLAND
A Doura de um Beijo
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.


Ttulo original: Wanted: a Wedding Ring
Copyright: (c) Barbara Cartland 1986
Traduo: Maria do Rosrio Sobral
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima n.  2. O00 - 3.  andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Fesan Editora Ltda. e impressa na Editora Parma
Ltda.

NOTA DA AUTORA

Uma aliana  o tesouro mais valioso que uma mulher pode possuir.
Todas as artistas de variedades sonham em se casar, e algumas delas
conseguiram entrar para a realeza. Rosie Boote tornou-se marquesa de
Hertford e Sylvia Lilian Story, a condessa de Poulett.
Desde os tempos mais antigos, as mulheres do valor a uma aliana. Os 
antigos gregos e egpcios usavam anis de ouro, enquanto os egpcios 
pobres usavam anis de prata, bronze, vidro ou cermica. Durante o 
Imprio Romano, os homens livres usavam anis de ouro, os escravos 
alforriados, de prata, e os escravos, de ferro.
No sculo II d. C. os cristos adotaram o costume de usar anis de
noivado, e com o passar do tempo, esses anis se transformaram nas atuais
alianas.
Como a aliana s de ouro que se usa atualmente fosse austera demais para
os nossos ancestrais, costumavam valoriz-la com pedras, mos
entrelaadas ou inscries romnticas.
Os anis de noivado com incrustaes de pedras preciosas foram 
introduzidos na Idade Mdia, e os anis de brilhantes tornaram-se 
populares por volta de 1800.
Era crena geral que a aliana devia ser de ouro, porque o ouro possui 
mais magia do que qualquer outro metal, mas na verdade o essencial era o 
formato.
As virtudes mgicas de um crculo perfeito so reconhecidas desde a 
Antiguidade.
 sabido que tirar a aliana do dedo d azar, e, para uma esposa, azar 
significa perder o amor do marido.
Na Amrica, reviveram o hbito de oferecer a aliana ao homem. Na 
Inglaterra, os homens bem-nascidos consideram vulgar usar qualquer outro 
tipo de anel que no seja um pequeno anel de braso, no ltimo dedo.
Houve um sacerdote egpcio que descobriu, ao dissecar cadveres humanos, 
que havia um pequeno nervo que partia do quarto dedo da mo esquerda e ia
at ao corao
Apesar de, na Anatomia do corpo humano, de Gray no aparecer nenhuma
referncia a esse nervo,  compreensvel que esse dedo fosse honrado,
primeiro pelo anel de noivado e em seguida, pela aliana de casamento.

CAPITULO I

1898
*dani
Rosie Rill abriu as cartas que o carteiro acabava de entregar.
Havia dois cartes de parabns, enviados por mulheres da mesma idade que 
ela.
Olhou para eles, horrorizada.
Cinquenta e cinco anos! No era possvel que ela, Rosie Rill, fizesse 
naquele dia cinquenta e cinco anos.
Da a dez teria sessenta e cinco, e, na previso mais otimista, estaria a 
um passo da sepultura!
Irritada, jogou os cartes no cho e sentou-se, olhando distraidamente 
para a frente, como se tentasse que um milagre fizesse o tempo voltar 
para trs, devolvendo-lhe os seus dezoito anos.
Lembrava-se to bem daquele aniversrio! Nunca poderia esquecer aquele 
dia, em que vira Vivian pela primeira vez.
At hoje, podia v-lo encaminhar-se em sua direo, enquanto ela descia a 
cavalo, sob os velhos carvalhos da avenida, imaginando quem poderia ser 
ele.
Como Rosie era muito ignorante no que dizia respeito aos homens, 
considerou-o o homem mais bonito que j vira, e no percebeu que estava 
bem-vestido demais para o campo, e que um verdadeiro cavalheiro no 
usaria aquele tipo de roupas.
Tudo o que ela conseguia ver naquele momento eram seus olhos negros, 
fitando-a com admirao, fazendo-a sentir que estava vendo um homem pela 
primeira vez.
Parou o cavalo ao chegar junto dele.
- Bom-dia! - disse ele. - Perdoe se estou invadindo a
propriedade, sem mais nem menos. Estas so as terras do conde de Ormond e 
Staverley, no so?
- So - respondeu Rosie, na sua voz jovem e doce.
- Bonita como , deve ser a filha do conde - continuou Vivian.
O elogio fez com que ela corasse, tornando-a mais linda ainda. 
Encabulada, respondeu:
- Sim. sou lady Rosamund Ormond.
Ao recordar aquele momento, Rosie ainda podia sentir a mesma emoo 
percorrer-lhe o corpo. Vivian dissera:
- Eu tenho que voltar a v-la, e no posso esperar muito tempo para que 
isso acontea!
E houve encontros todos os dias, duas e at trs vezes por dia.
No era difcil para Rosie escapar da manso. Agora que tinha crescido, 
no havia mais governanta para reparar em tudo o que ela fizesse.
Alm disso, tanto sua me como seu pai eram pessoas muito ocupadas.
Naquela altura do ano, tinham sempre muitos convidados para os eventos 
locais, e a condessa levava suas obrigaes de anfitri muito a srio.
Sempre entretida organizando as empregadas e combinando pratos com a 
cozinheira, nunca reparou que a filha era mais bonita que a maioria das 
moas da idade dela.
E que todos os dias ia andar a cavalo, longe da manso.
- Onde  que voc esteve? - resmungava s vezes o pai durante o jantar.
- Exercitando os cavalos, papai. O senhor sabe que temos pouco pessoal 
nas cocheiras.
- Boa menina! Confio em voc e espero que no os leve para muito longe.
- Claro, papai. Tenho sempre muito cuidado,
Na verdade, os cavalos passavam a maior parte do tempo amarrados a um 
porto ou a um tronco de rvore, no bosque.
Os animais ficavam bem satisfeitos por no fazerem nada, enquanto Rosie 
conversava com Vivian.
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Ficou sabendo muitas coisas sobre ele, ou melhor, o que ele queria que 
ela soubesse.
Vivian Vaughan!
Poderia algum homem ser mais romntico ou se parecer mais com o heri dos 
seus sonhos?
S muitos anos mais tarde, ficou sabendo que o seu verdadeiro nome era 
Bill Barton, e que ele viera de uma pequena aldeia do centro da 
Inglaterra.
Naquele momento, era um deus que tinha descido do Olimpo.
Toda ela vibrava com a beleza dele e as coisas romnticas que lhe dizia.
- Como voc pode ser to perfeita? - perguntava. - At v-la a cavalo, 
descendo a avenida, no fazia ideia de que uma mulher pudesse ser to 
maravilhosa!
Tudo o que ele dizia parecia o texto de um romance onde ela era a herona 
e ele, o heri.
- Nunca ouviu falar de mim? - perguntou, espantado. Bem, acho que  
compreensvel. Sou muito conhecido em Londres, mas talvez no no tipo de 
teatros que voc frequenta.
Rosie sorriu para ele, fazendo surgir no rosto duas covinhas 
encantadoras.
- S me permitem ver Shakespeare e assistir a concertos. Mas agora que 
estou mais velha, vou ser apresentada  rainha. Espero que, quando 
estiver em Londres, v a mais teatros, e assim talvez possa ver voc.
- Est indo para Londres?
Reparou na alegria contida na voz dele, com o corao cantando.
- Papai vai abrir a casa de Londres por minha causa. Vo me oferecer um 
baile e, evidentemente, uma recepo para todos os meus parentes mais 
velhos - explicou.
Fez uma pausa, depois perguntou;
- Voc acha que poder ir? Vivian Vaughan desatou a rir.
- Minha cara, fico muito honrado com esse seu pensamento, mas voc deve 
saber que sua me no me consideraria o tipo de amigo que uma debutante 
deve ter.
- Por que no?
- Porque sou ator, e por mais que os atores divirtam os membros da alta-
sociedade, estes no acham que sejamos boa companhia para as suas belas e 
jovens filhas, como voc.
Vivian era bem-educado. Rosie ficou sabendo depois que o pai dele fora
professor.
Mais uma razo para ele saber, com certa amargura qual era o seu lugar.
Continuaram se encontrando todos os dias, at que chegou o momento de ele 
voltar para Londres.
Tinha vindo para o campo por causa de uma tosse forte que pegara no 
inverno e que estava afetando sua voz.
- Se voc quiser tomar parte no novo espetculo tem que parar de tossir! 
Saia de Londres, v respirar o ar puro do campo e livre-se dessa voz de 
sapo! - haviam-lhe dito.
Um outro ator, seu amigo, disse-lhe como era bonita a pai sagem no norte 
de Hertfordshire, recomendando-lhe uma pequena estalagem onde a comida 
era boa e as camas, macias.
Vivian pretendia passar l apenas uma semana, mas por causa de Rosie, 
resolveu prolongar o repouso, como ele o chamava, por trs semanas.
- Como poderei deix-la? - perguntou, em desespero quando faltavam apenas 
trs dias para sua volta a Londres.
- Talvez eu possa v-lo s vezes, quando for para Londres
- respondeu Rosie em voz baixa, sabendo de antemo que seria pouco 
provvel.
Na cidade, nunca a deixariam sair sozinha de casa, e ela sabia que Vivian 
tinha razo quando dissera que no seria convidado para a casa de seu 
pai.
Ento, ele a beijou.
Antes, tivera medo que ela fugisse, assustada. Alm disso estava 
verdadeiramente apaixonado.
Pensava, com sinceridade, que aquela moa linda, pura e inocente 
pertencia a um mundo diferente do seu.
Foi quando a teve em seus braos, sentindo a doura e pureza daqueles 
lbios, que percebeu como a queria.
No suportava a ideia de perd-la.
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Pediu, implorou, suplicou, at que Rosie, tambm apaixonada, no 
conseguia mais negar nada do que ele queria.
- Ns nos casaremos - dizia Vivian, insistentemente -, e ento, seu pai 
no poder fazer mais nada!
- Mas... e se ele ficar to zangado que nunca venha a aceitar voc? - 
perguntou Rosie, aflita.
- Se eu for seu marido, ele ter que me aceitar. Obteremos uma licena 
especial e casaremos a caminho de Londres. S contaremos a seu pai quando 
chegarmos l,
"Como poderei fazer semelhante coisa? Como?", perguntava Rosie a si 
mesma, remexendo-se na cama, sem conseguir dormir.
Por outro lado, como poderia desistir de Vivian e suportar que ele fosse 
embora, deixando-a?
Nunca mais voltaria a ver seu rosto encantador, seus olhos eloquentes, 
nem ouvir as coisas bonitas que lhe dizia e que pareciam tirar-lhe o 
corao do peito, tornando-o dele.
"Eu o amo! Eu o amo!", pensava apaixonadamente, sabendo que nada mais 
importava no mundo, a no ser Vivian.
Fugir de casa foi mais fcil do que pensava.
No dia em que Vivian tinha que voltar para Londres, os pais de Rosie 
tiveram um compromisso do outro lado do condado, e saram de casa de 
manh bem cedo.
Assim que eles foram embora, Rosie, que j tinha tudo planejado, disse s 
empregadas para fazerem as malas com o que ela j tinha separado.
- Aonde est indo, milady? Sua Senhoria no nos avisou que a senhorita ia 
viajar.
- Vm me buscar s onze horas - respondeu Rosie. Esperou at que Vivian 
chegasse numa carruagem que tinha
alugado na vizinhana.
Quando subiu a escada da frente, os dois jovens criados ficaram pasmados, 
olhando para ele, e no tiveram outro remdio seno obedecer a lady 
Rosamund, que mandou que colocassem os bas na parte de trs da 
carruagem, e a bolsa de viagem, no cho, junto dos ps dela.
- Adeus, Bates - disse para o mordomo.
- O que devo dizer a Sua Senhoria, quando ele voltar logo
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 tarde, milady? - perguntou Bates, com a preocupao estampada no rosto 
enrugado.
O velho mordomo achava ultrajante o que estava acontecendo, to 
ultrajante que nem teve coragem de fazer nenhum comentrio.
- Diga a papai que lhe escreverei de Londres. Ao entrar na carruagem, um 
dos criados colocou uma manta em seus joelhos, e em seguida Vivian 
chicoteou os cavalos, que os conduziram avenida abaixo.
Reparou que ele no dirigia to bem quanto seu pai, e criticou-se por 
estar sendo desleal, achando defeitos numa pessoa to maravilhosa e que 
ela amava tanto.
"Como pude ser to louca?", perguntava-se Rosie, agora, apesar de ter 
sido feliz com Vivian. Talvez tivesse sido o perodo mais feliz da sua 
vida.
S quando recebeu uma carta do pai, dizendo que no a considerava mais 
sua filha e que nunca mais queria ouvir falar nela,  que percebeu o que 
tinha feito.
A atitude de seu pai tambm foi uma surpresa para Vivian.
Logo percebeu que ele no tinha dinheiro suficiente para mant-los no
mesmo padro a que estava acostumada.
- Voc tem que descobrir alguma coisa para fazer. Rosie olhou para ele, 
espantada.
- Voc est falando em trabalho?
- Estou dizendo que voc tem que ganhar algum dinheiro. Estamos com 
dvidas, e eu preciso de um terno novo.
Rosie lamentava no ter trazido mais roupa, quando tinha fugido de casa, 
mas era tarde demais.
Como estavam na primavera, s tinha mandado pr na mala os vestidos de 
vero, deixando em casa todas as roupas de inverno.
No se atrevia a dizer a Vivian que o nico casaco que trouxera no era 
suficientemente quente para os meses de frio e neve que se aproximavam.
Olhando para ela de modo estranho, ele disse, mas no em tom de elogio:
- Voc  muito bonita, Rosie, e tem um corpo esguio, perfeito, o que  
muito importante.
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- Importante para qu?
- Para o que eu quero que voc faa.
- E o que ?
- Teatro,  claro. Se eu sou ator, naturalmente, voc deve ser atriz.
Olhou para ele, estupefata.
- No, no! Claro que no! Como poderei fazer algo que me assusta e me 
deixa envergonhada? E que deixaria mame chocada, horrorizada!
- No creio que os sentimentos de sua me tenham alguma coisa a ver 
conosco, seja em que sentido for - respondeu Vivian, com frieza. - A no 
ser que ela esteja disposta a nos dar uma penso,  claro. No nos 
lembramos desse pequeno pormenor, quando voc fugiu de casa.
Rosie sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Sabia muito bem como 
Vivian se ressentia do ostracismo no qual seu pai a deixara, por ter-se 
casado com ele.
- Deus do cu! Pela maneira como eles se comportaram, ho de julgar que 
sou um escroque ou um criminoso - exclamou, furioso.
- Est arrependido por eu ter fugido com voc? - perguntou Rosie, 
soluando.
- No, claro que no! Voc sabe que eu a amo, querida, amo muito, mas  
difcil viver sem dinheiro - disse ele, abraando-a.
- Sim, eu sei.
- E depois de ter lutado tanto para chegar aonde cheguei no teatro, no 
posso desistir agora.
- Eu... eu lamento, querido, lamento que minha famlia seja to 
intransigente.
Esta frase foi repetida por ela vezes sem conta, quando comeou a ganhar 
dinheiro, s vezes mais do que Vivian.
Sabia que no tinha sido somente por ela prpria que Vivian a tinha 
convencido a fugir com ele.
Tambm estava fascinado pela posio social dela, e principalmente pelo 
fato de ser lady Rosamund Ormond, a filha de um conde.
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Contudo, tinha tomado uma deciso e nada do que Vivian pudesse fazer a 
demoveria disso.
Se tivesse que ir para o palco, permitiria que todos os Tom, Dick e
Harry, como seu pai dizia, olhassem para ela.
No poria seus irmos na lama, usando o seu prprio nome.
- No entende que seu nome seria um chamariz? Vo querer contrat-la como 
lady Rosamund. Vai conseguir muito mais dinheiro e admiradores, se usar 
seu prprio nome - argumentava Vivian.
- No preciso de admiradores. Tenho voc, e no usarei meu ttulo, nem o 
nome de meu pai.
No percebia por que estava sendo to obstinada.
Seu orgulho, a nobreza do bero, se rebelavam contra a ideia de o brilho 
do teatro macular sua famlia cujo nome fazia parte da histria da 
Inglaterra, atravs de muitos sculos.
Quando ainda estava em casa, nunca dera muita importncia  rvore 
genealgica que estava pendurada no estdio de seu pai, nem aos pavilhes 
que seus ancestrais haviam trazido de numerosas batalhas.
Na verdade, sempre achara que a galeria de pintura, com todos aqueles 
retratos de tantos Ormonds, era acabrunhante e muito aborrecida.
Mesmo assim, no poderia suportar a censura deles, se soubessem que uma 
Ormond subia a um palco.
Vivian acabou por desistir de faz-la mudar de ideia, e escolheu-lhe um 
nome artstico.
- Muito bem, mas, se quer ser atriz, ento  melhor ter um apelido de que 
o pblico se lembre com facilidade: Rosie, em vez de Rosamund, e.
Fez uma pausa, antes de finalizar:
- Rill, em vez de Ormond. Rosie Rill, que tal?
- Tudo bem - respondeu Rosie com enfado, quase chorando por ele estar 
sendo sarcstico.
Ento, num daqueles rompantes de bom humor sbito, ele passou os braos  
volta dela e a beijou.
- O que interessa como voc vai se chamar, desde que
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continue to encantadora como  agora? Voc vai fazer com que se ajoelhem 
a seus ps, minha querida, no tenha dvidas.
Ironicamente, porque na vida no costuma acontecer como as pessoas 
prevem, foi exatamente o que Rosie fez.
Primeiro, conseguiu uma pequena ponta na pea em que Vivian era o ator 
principal.
Os jornais repararam nela e, apesar de dizer apenas umas poucas palavras 
em cena, os espectadores enchiam o teatro de palmas, mal ela entrava.
Aumentaram-lhe o papel.
- Voc  um sucesso, minha querida - disse Vivian. Como ele parecia 
orgulhoso e contente, Rosie tambm estava
feliz.
Era impossvel faz-lo entender como ficara apavorada quando tivera que 
enfrentar as luzes da ribalta pela primeira vez, sabendo que centenas de 
pessoas desconhecidas olhavam para ela.
Estava to assustada que a voz sumiu da garganta e teve vontade de fugir 
correndo.
Depois, disse para si mesma que toda aquela gente que olhava para ela no 
tinha nenhuma importncia.
A nica coisa que interessava  que Vivian ficasse contente e a amasse.
- Eu amo voc! Eu amo voc! - costumava dizer, enquanto esperava nos 
bastidores.
Era Vivian que lhe dava a fora necessria para ela fazer o seu papel.
No incio, foi fcil.
Ele era a estrela da pea. O pblico o aplaudia, no por ser 
especialmente bom ator, mas porque era muito bonito.
At que, aps sete anos representando no West End e fazendo excurses 
que, por causa de Vivian, Rosie suportava, sem se queixar, o teatro de 
variedades foi construdo.
Vivian vivia falando sobre o novo teatro, todo entusiasmado, mas Rosie 
nunca se havia interessado.
Era muito difcil aguentar as noitadas de que Vivian gostava.
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Tinha que acompanh-lo s ceias que havia depois do espetculo e que se 
prolongavam at altas horas, e, ao mesmo tempo, tentar manter um lar 
decente.
Nas acomodaes baratas e desconfortveis onde moravam, isso significava 
ter que se levantar de manh bem cedo para conseguir ter tudo em ordem 
quando ele acordava.
Passado muito tempo, ela comeou a prestar ateno na conversa do novo 
teatro.
Mais esplendoroso, arejado, confortvel e higinico, era a melhor casa de 
espetculos que havia.
- Eles estiveram em Paris, vendo um grande nmero de teatros - disse 
Vivian.
Rosie ficou imaginando quem seria "eles", mas no teve curiosidade 
suficiente para perguntar.
- Eles vo cham-lo de teatro de variedades, um nome que fala por si s. 
Ser no Strand, e dirigido por John Hollingshead - acrescentou Vivian.
- Voc gostaria de um bife para o jantar? - perguntou Rosie, que queria 
que Vivian se alimentasse bem, para no ficar com m aparncia, como os 
outros atores, que no comiam direito e bebiam demais.
- Sim, sim, claro - respondeu Vivian, absorto ainda com o teatro.
Rosie comeou ento a pensar que tinha que encarar o tal teatro novo como 
o mais srio rival que j tivera que enfrentar.
Evidentemente, havia muitas ocasies em que sentia cime, pois Vivian 
tinha sempre um monte de mulheres atrs dele.
As fs escreviam-lhe cartas sem fim.
Mas o que a preocupava mais eram as mulheres do teatro. Flertavam com ele 
descaradamente, quer Rosie estivesse presente ou no.
Ele era um encanto para todas as pessoas, e a sua atuao atual no 
Olympic o tornava mais popular do que nunca.
Rosie tentava no se importar quando ele recebia algum convite para cear 
sem ela.
Ia sozinha para o apartamento que agora possuam em Covent Garden, onde 
ficava acordada, sem conseguir dormir enquanto Vivian no chegava.
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s vezes, ele entrava sorrateiramente, muito tarde, ou de manh cedinho, 
e como sabia que ele no gostava de perguntas, Rosie fingia estar 
dormindo.
Outras vezes, Vivian voltava todo contente, comeando a contar o sucesso 
mal abria a porta.
Repetia os elogios que lhe tinham feito e enumerava as pessoas 
interessantes que tinha conhecido.
Isso a tranquilizava bastante. Sabia que nenhuma lady do meio social de 
onde provinha seria vista com Vivian, apesar de o marido as divertir do 
mesmo modo como divertia as garotas bonitas do teatro.
A principal preocupao de Vivian era fazer com que o sr. Hollingshead se 
decidisse a convid-lo e a Rosie para um espetculo de variedades.
A essa altura, Rosie j se tinha habituado a desempenhar papis 
secundrios, para os quais fosse preciso uma atriz muito bonita e no
necessariamente talentosa.
Na verdade, ela no sabia representar.
Era doce, gentil e linda, mas nem um pouco teatral. Vivian, entretanto, 
longe de reclamar de sua falta de talento, preferia que ela continuasse 
assim.
Enquanto sua mulher estivesse ganhando o suficiente para ambos viverem 
com algum luxo, ele no queria que ela rivalizasse com Nellie Farrer, a 
estrela que conquistava as plateias do Olympic.
Nellie tornou-se a estrela principal do teatro de variedades.
Pela primeira vez, a companhia incluiu no elenco garotas escolhidas pela 
beleza e no por dotes dramticos ou vocais, pois a maioria delas no 
precisava dizer nada em cena.
Tinham apenas que ser bonitas, e isso Rosie podia fazer sem nenhuma 
dificuldade.
- Sabe que sua mulher  a pessoa mais bonita do teatro hoje em dia? - 
comentou algum a Vivian Vanghan.
- Eu tambm acho - respondeu ele, com seu sorriso encantador.
- Voc, sem dvida nenhuma,  o astro mais atraente, e assim, vocs 
formam um par sem igual.
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Esse comentrio deu a Vivian uma ideia.
Foi ao encontro do sr. Hollingshead e sugeriu que ele e Rosie fossem 
contratados como "o par mais belo dos palcos de Londres, " ou do palco 
que interessasse, na altura.
Hollingshead ficou um pouco surpreendido, mas acabou por concordar em que 
era uma ideia nova e bastante lucrativa.
Contratou Vivian e Rosie, e a dupla fez um tremendo sucesso.
A essa altura, Rosie tinha desabrochado e tornara-se muito mais bonita do 
que tinha sido quando garota.
Perdera a timidez, e seus traos clssicos e de pessoa bemnascida a 
tornavam diferente das outras, que, apesar de muito bonitas tambm, no 
eram "madeira da mesma cepa", como Vivian costumava dizer, com 
propriedade.
Msicas foram escritas especialmente para "o par mais bonito" e os 
aplausos que recebiam a cada noite foram aumentando e se prolongando mais
e mais.
Pareciam um casal de deuses sados do Olimpo. Rosie s vezes surgia, 
belssima, num vestido grego bastante revelador. Em outras, Vivian com um 
uniforme impecvel, desempenhava o papel de um soldado que se despedia da 
mulher amada, antes de partir para a batalha onde seria morto.
Ou ento Rosie, deitada sobre a sepultura, chorava o amor perdido, 
arrancando lgrimas de cada mulher que assistia ao espetculo.
Apareciam em cena fazendo vrios quadros, mas o que realmente importava 
era sua beleza.
Os jovens elegantes j tinham os binculos apontados para ela, mal 
entrava no palco.
Rosie recebia muitos convites desses homens, mas recusava sempre que no 
incluam Vivian. Por outro lado, no podia impedir que a perseguissem e 
escrevessem cartas que ela, invariavelmente, jogava no fogo.
- Por que no me deixam em paz? - perguntou a Vivian, furiosa.
- Porque voc  a mulher dos sonhos de qualquer homem, minha querida, e 
voc  minha!
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Ela queria acreditar nas palavras dele, mas comeava a ter certas 
desconfianas.
O sucesso que Vivian obteve no teatro de variedades tornou o amor que 
tinha por ela menos intenso e apaixonado que no passado.
Apesar de no querer admitir isso nem para si mesma, sabia muito bem que 
as noites em que ele dizia que ia para festas s de homens, nas quais ela 
voltava para casa sozinha, repetiam-se cada vez com mais frequncia.
De manh, quando escovava a roupa dele, notava p-dearroz no ombro, ou um
cheiro de perfume que no era o seu.
Dizia a si mesma que esses indcios no eram importantes e que tudo 
continuava to maravilhoso como antes.
Mas a verdade era que cada vez o via menos, s tendo um contato mais 
prximo com ele quando apareciam juntos, no palco.
Ele chegava tarde em casa, dizendo-se cansado demais, e dormia logo a 
seguir.
Rosie lembrava-se ainda da primeira vez em que ele dissera que tinha sido 
convidado para passar o fim de semana fora.
- Eu sei que voc vai compreender, querida - afirmou, usando o charme que 
a fazia sentir que estava perante uma plateia. - Lorde Thurston convidou-
me para ficar em casa dele, com alguns amigos. Vamos depois do espetculo 
de sbado e voltarei segunda  tarde.
- Vo. logo depois do espetculo? Mas como  que vai conseguir chegar l, 
 noite? - perguntou Rosie, estupidamente.
- Lorde Thurston vai levar os convidados no seu trem particular, e como 
no levaremos mais de uma hora, cearemos quando chegarmos - respondeu 
Vivian,  vontade.
Foi a primeira vez que Rosie passou um domingo sozinha.
Como no tinha nada para fazer, resolveu ir  igreja.
Durante todos aqueles anos, em que trabalhava com Vivian, quase esquecera 
como as cerimnias religiosas da pequena igreja normanda onde tinha sido 
batizada eram importantes para ela, quando criana.
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Costumava rezar por tudo o que queria.
Ento, depois de ter passado tanto tempo sem ir  igreja, deu por si 
rezando desesperadamente para no perder Vivian.
Passado algum tempo, achou que tinha tido uma premonio, pois aconteceu 
exatamente aquilo que mais temia.
Um ms depois, ele lhe disse que estava indo para a Amrica.
- Para a Amrica? - perguntou, incrdula.
- H uma pessoa que me prometeu que, se eu quisesse, me daria um teatro, 
mas antes pretendo ter umas longas frias, conhecendo esse pas de que 
tanto ouvi falar e que nunca visitei.
- Voc. vai sozinho?
Vendo Vivian afastar o olhar, percebeu que tinha feito uma pergunta 
idiota. Claro que no ia sozinho.
A rica viva que ele tinha conhecido em casa de lorde Thurston fora uma 
tentao forte demais para ele recusar.
Mais uma vez o seu orgulho a impediu de gritar e lanar-se aos ps de 
Vivian, implorando-lhe que no a deixasse.
- Deixarei algum dinheiro para voc no banco, apesar de hoje em dia voc 
estar ganhando mais do que eu.
"Essa  a principal razo de ele querer ir embora", pensou Rosie.
Nos ltimos meses, sua popularidade era muito superior  de Vivian, 
apesar de ela no saber como tal tinha acontecido.
Mas a verdade era que ela recebia mais cartas, mais flores e mais 
atenes.
Na verdade, essa fora a mola detonadora da partida dele.
Queria seguir seu prprio caminho, sem ter que carreg-la a seu lado como 
a mulher mais bonita do mundo.
Foi tudo decidido com tanta rapidez que s quando ele foi embora  que 
ela percebeu o que tinha acontecido; que ele a tinha deixado para sempre.
O golpe final foi o mais difcil de engolir.
Estava fazendo as malas dele, sentindo um peso no peito, to grande
que a impedia de ter qualquer espcie de emoo, quando resolveu
perguntar a Vivian:
20
Voc... vai se casar com essa mulher? 
No posso, uma vez que j sou casado com voc respondeu ele.
Depois, fez uma pausa embaraosa.
Rosie estranhou e perguntou:
O que foi? O que  que voc tem?
Tinham vivido tantos anos juntos que ela sabia que ele estava tendo algum 
problema de conscincia.
- Acho que chegou o momento de ser honesto - disse ele.
- Eu j era casado, quando conheci voc!
- Casado? - repetiu Rosie, num fio de voz.
- Casei-me muito jovem. Ela era mais velha do que eu e fugiu com um homem 
muito rico, o que no me surpreendeu.
- Voc quer dizer. que ns no somos casados? balbuciou Rosie.
- A verdade  que sou bgamo! Quando conheci voc, no ouvia falar da
minha mulher h cinco anos, e presumi que tinha morrido.
- E tinha?
- Por incrvel que parea, na semana passada li no jornal que o homem com
quem ela viveu todos estes anos lhe tinha deixado uma enorme fortuna, que
agora estava sendo contestada pelos filhos que ele teve com outra mulher.
Rosie fechou os olhos, abatida.
No podia ser verdade. Tudo aquilo parecia um pesadelo, ou um quadro 
igual a tantos que tinham representado juntos.
Era tudo faz-de-conta.
Quando Vivian foi embora, ela percebeu que a famlia estava certa ao 
achar que ela tinha escolhido uma vida degradada.
Apesar de ter sido feliz, ele lhe tinha roubado o que tinha de mais 
precioso: o seu amor-prprio.
"Como  que tudo isso pode ter acontecido comigo?", perguntou-se Rosie, 
repetindo a pergunta que as mulheres faziam a si mesmas desde o incio 
dos tempos.
Mas tinha.
Ela, lady Rosamund Ormqnd, durante esses anos todos fora a amante de um 
ator!
21
Ele a tinha carregado para um mundo desconhecido e que no compensava 
tudo o que ela tinha perdido.
Mas agora era tarde demais, tarde demais para mudar, para voltar atrs e 
admitir que tinha errado. Era bonita e fazia sucesso.
O nome de Rosie Rill estava escrito em letras enormes, em tudo quanto era 
publicidade do teatro de variedades.
"Vou mostrar que sou to boa quanto eles, seno melhor!", afirmou para si
mesma, desafiadora.
E foi exatamente o que fez. Entretanto, no final das contas, o que 
ganhara com isso?
Apenas dois postais de parabns, no dia em que fazia cinquenta e cinco 
anos, e um pequeno ramo de flores baratas, oferecido por Amy, sua 
camareira.
"Que dio! Odeio esta vida aborrecida, preferia estar morta!", murmurou, 
entre dentes. Nesse momento, Amy entrou.
- Est a uma pessoa que lhe quer falar, miss Rosie!
- Quem ?
- Ela no disse o nome, apenas que  sua sobrinha e que precisa muito 
falar com a senhora.
- Minha sobrinha? - perguntou, olhando espantada para Amy.
Tentava lembrar-se quem teria representado o papel de sua sobrinha, na 
ltima pea que tinha feito no teatro.
Como o pblico queria ver a "nossa Rosie", como a chamavam, tinham 
escrito um quadro especial para ela, uma coisa ligeira, porque nunca 
tinha sido uma verdadeira atriz e no podia enfrentar um papel mais 
elaborado, mais forte, que precisasse de uma atriz mais velha.
Algum devia ter feito o papel de sua sobrinha, mas quem?
No podia estar to esclerosada a ponto de no se lembrar disso!
- Bem, vai ou no vai receb-la? - perguntou Amy.
- Oh, mande-a entrar. Qualquer coisa ser melhor que ficar aqui sentada, 
recordando o passado!
Era melhor conversar com uma jovem atriz do que com ningum.
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passado um pouco, Amy reapareceu.
- Aqui est ela! Diz que se chama Ina Westcott. Rosie voltou a cabea, 
lentamente.
Uma moa ainda muito jovem e nervosa entrava pela porta.
- Obrigada - disse a moa a Amy, com voz doce. Rosie ficou olhando para 
ela, sem saber se estava louca ou
tendo uma alucinao.
A jovem que se aproximava parecia ser ela mesma, h quarenta anos atrs.
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CAPITULO II

Por alguns momentos, Rosie ficou olhando, boquiaberta, incapaz de 
qualquer outra reao. Depois, com uma voz estranha, perguntou:
- Quem  voc?
- Sou sua sobrinha - respondeu a jovem, assustada. E pode ser uma 
impertinncia minha. mas vim pedir a sua ajuda.
- Ajuda? - repetiu Rosie, com a sensao de que seu crebro tinha parado 
de funcionar.
Ento, inesperadamente, a moa sorriu e seu rosto se iluminou, ao dizer:
- Estou to emocionada por conhec-la! Ouvi falar tanto da senhora, que, 
para mim, foi sempre a pessoa mais excitante do mundo!
- Como poderia eu ser? - perguntou Rosie, e, reparando que a moa que se 
parecia tanto com ela estava em p, disse:
- Sente-se, meu bem, e conte-me o que se passa. Voc me pegou de 
surpresa, e estou um pouco confusa.
- Eu estava com muito medo de que a senhora no quisesse me receber.
- Vamos comear do princpio - sugeriu Rosie. - Diga-me exatamente quem .
- Sou filha da sua irm mais nova, Averil.
- Averil!
Averil era apenas uma garotinha quando Rosie fugira de casa.
Era uma criana linda, de olhos azuis, que ainda brincava com a bab, 
enquanto a outra irm, Muriel, comeava a aprender a ler.
24
Ento voc  filha de Averil! - disse, depois de alguns
instantes. - Fale-me dela.
Ina ficou olhando para Rosie e depois perguntou: No sabia que mame
morreu?
- Lamento muito, no fazia ideia.
- E agora papai tambm morreu, e no tenho para onde ir. Pensei que. que
se no estivesse muito ocupada Talvez pudesse me ajudar a encontrar um
trabalho que desse para me manter.
Rosie olhou para Ina como se no acreditasse no que estava ouvindo.
- Est dizendo que sua me a deixou sem dinheiro? E seu av? Sei que 
ainda est vivo.
Rosie sabia porque, nos dias interminveis em que no tinha nada que 
fazer, nem ningum com quem conversar, costumava ler as colunas sobre a 
corte nos jornais, e os artigos sociais das revistas femininas.
Ocasionalmente referiam-se a seu pai. governador de Hertfordshire h 
muitos anos.
- Acho que meu av ainda vive, mas creio que a senhora no sabe que mame 
foi renegada pela famlia por que fugiu de casa com o homem que amava - 
disse Ina.
- Sua me fugiu de casa? - repetiu Rosie, incrdula. Ina sorriu, ficando 
igual a Rosie quando tinha a mesma idade e a mesma pureza.
- Mame no fugiu com uma pessoa to bonita e famosa como a que a senhora 
escolheu, mas com o proco auxiliar da igreja do parque. Lembra-se da 
igreja?
- Sim, claro que me lembro.
- Papai no era to bonito como o sr. Vaughan, mas tinha uma boa 
aparncia. Eu costumava arreli-lo, dizendo que as mulheres da nossa 
parquia s vinham  igreja para ficar olhando para ele, esperando que 
lhes desse alguma ateno.
- Ento Averil casou-se com um vigrio!
- Mame contou-me como vov ficou furioso, ao saber que ela estava 
apaixonada. Gritou com ela e disse que, se
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casasse com papai, podia ir embora de casa para nunca mais voltar!
Ina olhou para Rosie, apreensiva, antes de continuar
- Ele acrescentou que j tinha tido uma filha que fizera um casamento
desastroso, e no admitiria que isso voltasse a acontecer.
- Isso era bem de meu pai! - afirmou Rosie, num tom duro.
- Ele foi muito cruel com mame, e proibiu-a de voltar a ver papai. Foi 
fazer queixa ao bispo, que transferiu papai para uma pequena aldeia, num 
lugar ermo de Gloucestershire.
- E sua me foi com ele?
- Eles fugiram da maneira mais romntica, e casaram-se a caminho da 
aldeia para onde ele tinha sido designado. Esperavam que vov os seguisse 
e tentasse levar mame de volta.
- Mas ele no fez isso disse Rosie, adivinhando exatamente o que tinha 
acontecido.
- Mame contou que no souberam mais nada dele, at chegar uma carta em 
que vov dizia que a tinha renegado como filha, que nunca mais queria 
ouvir falar nela e que a deserdava!
Rosie cerrou os olhos, recordando o que havia sentido, ao receber uma 
carta semelhante.
Como tinha pedido desculpas a Vivian, que obviamente esperava que pelo 
menos ela tivesse dinheiro suficiente para comprar suas prprias roupas.
- Papai e mame eram muito pobres, mas to felizes que creio que nunca se 
importaram muito.
- Felizes mesmo? - perguntou Rosie.
- Creio que nunca houve casal mais feliz. S quando eu fiquei mais 
crescida  que mame costumava dizer que lamentava no poder me
proporcionar tudo o que ela tivera: cavalos, carruagens, vestidos
bonitos, festas e bailes.
- E, naturalmente, um grande nmero de amigos da nossa prpria classe 
social - murmurou Rosie, entre dentes.
Ina deu uma risada jovem e alegre.
- No acredito que mame se importasse por no ter mais
26
essas coisas, feliz como era com papai. O nosso pequeno vicariato era 
lindo e confortvel, e no me lembro de ter havido preocupao com 
dinheiro... S agora.
Ergueu os olhos azuis cheios de medo para Rosie, dizendo baixinho:
- Foi por isso que eu vim falar com a senhora.
- E acha mesmo que posso ajud-la?
- No tenho mais ningum. Papai no tinha dinheiro nenhum alm do que 
ganhava, e agora, que ele est morto pelo menos tenho que ganhar para
comer.
Tentava falar despreocupadamente, mas percebia-se que estava apavorada
com o futuro.
- Meu bem, acho que, se for ter com seu av, ele vai perdo-la pelo
"pecado" de seus pais e receb-la de braos abertos.
- No me parece provvel. Quando mame morreu, papai escreveu-lhe, dando-
lhe a notcia por julgar que era sua obrigao.
- E o que aconteceu?
- A carta de papai foi devolvida, rasgada ao meio! Rosie susteve a 
respirao.
- Que atitude desprezvel!
- Papai ficou muito magoado. E sei que se mame soubesse, teria chorado 
muito.
Ina fez o comentrio com toda a simplicidade e, aps um breve silncio, 
Rosie disse:
- Ento voc veio ter comigo porque no tem ningum mais a quem recorrer.
- Absolutamente ningum! De qualquer forma, eu sempre quis conhecer a 
senhora, porque achava que tinha tomado uma atitude corajosa e linda, 
fugindo como mame e tornando-se to famosa, juntamente com seu marido.
Os lbios de Rosie se estreitaram, antes de dizer:
- Como  que pode saber? No acredito que seus pais falassem de mim.
Olhando prolongadamente para a tia, Ina corou um pouco.
- Apesar de me parecer estranho, penso que papai se chocava
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com o fato de a senhora ser atriz. Mas mame costumava falar sobre a
senhora, quando estava a ss comigo. Fez uma pausa e suspirou.
- Contava-me como a senhora era bonita, como todos a admiravam e que vov 
esperava que fizesse um casamento muito importante, com algum to 
distinto como ele.
Rosie no fez nenhum comentrio, e Ina juntou as mos ao continuar:
- Para mim, era a histria mais romntica que eu podia imaginar, e passei 
a ler tudo quanto escreviam sobre a senhora, nos jornais e nas revistas.
- Sua me conversava com voc sobre mim? - perguntou Rosie, finalmente.
- Creio que o que a fez ter coragem de fugir de casa foi saber do seu 
sucesso e da sua felicidade.
Rosie engoliu em seco e, para mudar de assunto, disse:
- Voc tem que dizer exatamente o que acha que posso fazer por voc.
- Pode parecer muita presuno da minha parte, mas, como  to famosa, 
pensei que talvez pudesse me arranjar algum trabalho no teatro, se no 
como atriz, pelo menos nos bastidores, costurando ou ajudando.
Vendo que Rosie no tinha entendido bem, acrescentou:
- Sou nova demais para ser governanta, e no sei fazer nada que me possa 
render dinheiro.
Houve uma pausa, enquanto Rosie pensava que no seria difcil conseguir 
que uma moa to bonita trabalhasse no teatro de variedades.
Mas lembrava-se ainda da agonia por que tinha passado na idade de Ina, 
quando aparecera pelas primeiras vezes por trs dos refletores, por causa 
da insistncia de Vivian.
Nos anos que se seguiram  sua sada do teatro, passava os dias sozinha, 
sem se interessar por nada.
Os amigos, e tivera alguns maravilhosos, apareciam cada vez menos para 
visit-la.
Foi a partir da que se arrependeu amargamente do momento
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de loucura em que tinha trocado a segurana do lar, a famlia e sua 
posio de filha de um conde por um ator bonito.
No sabia como dizer a esta criana que tanto se parecia com ela da luta 
interminvel que era viver sob a mira do pblico, tentando conseguir 
sempre um papel melhor na prxima pea, no prximo espetclo e nos que 
estivessem por vir.
Como poderia contar as inmeras tentaes a que fora submetida a esta 
garota pura e inocente, criada num vicariato?
Enquanto pensava que era esposa de Vivian, resistira, porque o amava. E 
mesmo nesse tempo, no fora fcil.
s vezes tinha medo no s da paixo que despertava nos homens, mas 
tambm que as suas recusas afetassem a sua posio junto  diretoria do 
teatro.
Eles queriam acima de tudo que seus benfeitores estivessem satisfeitos.
Ento, quando Vivian a abandonou, sabendo que nem ao menos tinha sido 
casada com ele, achou que a vida tinha terminado e que quanto mais cedo 
morresse, melhor.
Ele partira ao terminar um espetclo, e ainda faltava uma semana de 
ensaios para comear o prximo.
Depois de chorar dois dias sem parar, Rosie chegou a ir at o rio Tamisa, 
e ali ficou, contemplando suas guas negras, que corriam em turbilho, 
com vontade de acabar com aquele sofrimento por um homem que no a queria 
mais.
Mas um estranho orgulho, o orgulho demonstrado pelos primeiros Ormonds na 
batalha de Agincourt, devolveu-lhe a vida, o mesmo orgulho que os fez
receber uma condecorao real atrs da outra fazia agora que ela no
permitisse que Vivian ou qualquer outra pessoa a derrotasse.
Foi para o teatro e convenceu o sr. Holingshead a escrever uma parte para 
ela, sem Vivian.
E tomou uma firme deciso.
Havia de mostrar ao homem que a abandonara que passaria muito bem sem 
ele.
Encarava cada aplauso, cada elogio da crtica, cada cumprimento que 
recebia como um gesto de desafio ao homem que tanto tinha amado.
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Ele a deixara por uma mulher mais rica. "Ultimamente,  s o que conta:
dinheiro!", afirmava para si mesma, com amargura.
Nem amor, nem devoo, nem auto-sacrifcio. S moedas de ouro.
Lenta, mas progressivamente, a doce, meiga e gentil Rosie Rill, que 
juntamente com Vivian fizera o par mais belo do mundo, foi-se 
transformando numa pessoa bem diferente. Bela, mas sem se ajoelhar mais
aos ps do homem amado. Determinada, por mais dificuldades que tivesse
que enfrentar, a levar a vida a seu modo.
Mas o destino quis que Rosie sofresse novo golpe, novamente sob a forma 
de um homem.
No incio, contra a sua prpria vontade, esforou-se por aceitar os 
convites para cear que sempre recusara se Vivian no estivesse presente. 
Agora, esses convites se multiplicavam. O seu camarim vivia repleto de 
flores. No princpio, quando ainda se sentia desesperadamente infeliz, 
tinha o cuidado de s aceitar convites que inclussem um grupo de pessoas 
do teatro.
Depois conheceu o marqus de Colthaust. Ouvira e lera muito sobre ele, e 
via-o no mesmo camarote do teatro, noite aps noite.
Apesar de no ligar para fofocas, ouvia as histrias dele com as mulheres 
mais belas do teatro de variedades.
Dizia-se que era muito generoso. Tendo olhos apenas para Vivian, Rosie 
nunca se deu conta que as conquistas do marqus duravam sempre pouco 
tempo.
Um dia, ele a convidou para cear, dizendo que haveria mais pessoas e que 
iria busc-la depois do espetculo.
Para sua surpresa, ele no a levou para o Romano's, como ela esperava,
mas para a casa dele, em Grosvenor Square.
Nem se apercebeu de que era um privilgio que nenhuma outra atriz tivera, 
achando simplesmente que no era muito normal ele lev-la para cear em 
sua prpria casa.
Ao chegar, estranhou que no houvesse mais ningum, e fitou-o, intrigada.
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Quero falar com voc, Rosie, ou devo cham-la Rosamund? - disse o 
marqus.
Rosie teve um sobressalto.
Levei algum tempo para descobrir a verdade a seu respeito, mas agora vejo 
que  parecida com outros membros da sua famlia.
Rosie afastou-se dele, com petulncia.
- No quero falar sobre a minha famlia, e estou certa de que no 
falariam com voc sobre mim.
- Acho que foi muito corajosa ao fugir com Vaughan e que ele agiu muito
mal, deixando-a.
- No quero a sua piedade, nem a de ningum! - retorquiu Rosie.
- Entendo seus sentimentos, mas como  diferente de todas as outras 
mulheres do teatro, quero que me fale de voc.
Parou de falar e ficou olhando para ela.
- Tambm quero entender como conseguiu amar um homem como Vaughan, 
completamente estranho  vida que voc levava, antes de conhec-lo.
Rosie tinha jurado a si mesma que nunca falaria a ningum sobre aquele 
assunto, mas o marqus tinha alguma coisa que o tornava irresistvel.
Pela primeira vez desde que Vivian a tinha deixado, contou o quanto tinha 
sofrido e as dificuldades que tinham passado, nos anos em que haviam 
estado juntos, como se adaptara  maneira de viver de Vivian e aos seus 
interesses.
- Apesar de no princpio no ter notado, ficou sabendo a diferena entre 
um homem bonito, mas vulgar, que viera de uma classe social diferente da 
sua, e um aristocrata como o marqus.
Era uma diferena que no se podia traduzir em palavras.
Tinha conscincia da forte presena dele, mas, como toda a sua vida fora 
dedicada a um s homem, no percebeu que ele a estava seduzindo de 
maneira sutil.
E acabou se apaixonando por ele.
Claro que se apaixonou! Como poderia resistir a um homem com quem podia 
falar de igual para igual, que a fazia sentir-se uma verdadeira deusa?
31
O marqus no era louco a ponto de mostrar o jogo imediatamente.
Primeiro cearam juntos, com toda a tranquilidade, e depois levou-a para 
casa, beijando-lhe a mo.
S depois de duas semanas encontrando-o diariamente  que Rosie admitiu 
para si mesma que estava apaixonada.
Era um amor convicto, no a paixo entusiasmada e inconsequente de uma 
escolar romntica.
O marqus comprou-lhe uma casa em St. John's Wood, que ela mobiliou com 
instintivo bom gosto, que estava adormecido durante os anos e anos de 
mudanas de uma penso para outra, que culminaram no apartamento de 
Covent Garden, j mobiliado.
Esta casa era dela, e ela a amava, tal como amava o marqus. Tinha 
esperanas de que ele lhe pedisse para abandonar o palco, mas logo 
percebeu que tudo aquilo representava um lado muito importante na vida 
dele.
Gostava de ter o camarote esperando por ele, noite aps noite, depois das 
horas aborrecidas que passava na Casa dos Lordes, jantando com os homens 
de Estado, ou em Marlborough House, com o prncipe de Gales.
Frequentemente, s conseguia chegar ao teatro no ltimo ato, mas 
precisava dessa distrao.
Quando Rosie trocava a roupa de cena, colocando um vestido de noite, 
usando as zibelinas que ele lhe tinha oferecido, j a carruagem dele a 
esperava na porta.
Ele parecia transformar tudo o que faziam em algo excitante e, de certa 
forma, mgico.
Rosie, finalmente, admitiu para si mesma que o amava mais do que tinha 
amado Vivian, e comeou a rezar com toda a sua alma para que ele se 
casasse com ela.
No podia imaginar nada mais maravilhoso do que ser esposa do marqus.
Poderia deixar para sempre a frivolidade do teatro e ficar muito feliz, 
sendo a senhora da enorme casa ancestral que ele tinha no campo.
Poderia receber nos sales maravilhosos de Grosvenor Squae e imaginava-se 
sentada no extremo da enorme mesa da sala de jantar, usando os brilhantes 
dos Colthaust, muito mais valiosos do que qualquer coisa que sua me
possusse.
Imaginava o espanto de seu pai, quando soubesse que, apesar do seu 
ostracismo, o marido da filha era socialmente mais importante do que ele.
Por favor, meu Deus, faa com que Lionel me pea em casamento. meu Deus, 
por favor!
Todos os fins de semana, quando ele viajava, ela ia para a igreja pedir 
perdo por alguma coisa errada que tivesse feito na vida e que Deus 
olhasse por ela, agora.
Passou mais de um ano imensamente feliz e to profundamente apaixonada 
que esse estado de esprito parecia irradiar dela, quando estava no 
palco.
Sua popularidade aumentava sem parar.
Todas as revistas publicavam fotografias suas de corpo inteiro, e sempre 
que escreviam sobre o teatro de variedades, os crticos a mencionavam.
O sr. Hollingshead deu-lhe melhores papis e roupas ainda mais luxuosas 
para usar.
- Voc  a encarnao do prprio teatro de variedades, Rosie, de tudo 
aquilo que tento educar o pblico para apreciar
- disse-lhe o sr. Hollingshead, sorrindo.
Rosie procurou decorar aquele elogio, para mais tarde poder repeti-lo ao 
marqus.
Foi ento que o sonho acabou.
Depois do Natal, o marqus disse-lhe que em fevereiro pretendia ir para 
Monte Carlo.
Sabia que ele tinha uma vila no principado. Ele costumava falar muitas
vezes dos divertimentos e da alegria de Monte Carlo, e de como a cidade 
era o mximo da moda, frequentada at mesmo pelo prncipe e a princesa de
Gales.
Esperou que ele a convidasse a ir, mas os dias foram se passando, e como 
ele no dizia nada, percebeu, chocada, que pretendia ir sozinho.
- Voc no vai ficar longe muito tempo, vai?
- Tudo depende do ambiente. No ano passado, estive apenas uma semana - 
respondeu ele.
33
Mais animada, disse a si mesma que no devia se intrometer na parte da 
vida dele que era distinta da que passava com ela.
Antes de partir, ele parecia muito ocupado, apesar de passar a maioria 
das noites com ela, que se sentia mais feliz do que nunca.
- Voc est muito bonita, Rosie - disse-lhe, quando estavam os dois 
deitados na cama grande e confortvel que parecia ocupar todo o espao do 
quarto da casa dela.
- S a sua opinio me interessa - respondeu Rosie, com toda a 
sinceridade.
Os aplausos que recebera nessa noite s tinham sido importantes porque o 
marqus estava no camarote, assistindo a tudo.
Fora chamada ao palco seis vezes, e enormes cestos de orqudeas lhe 
haviam sido entregues em cena.
Finalmente, acenou para aquele pblico carinhoso, levando apenas um ramo 
de rosas vermelhas que o marqus lhe tinha mandado.
Quando chegou ao camarim, encontrou, uma pulseira de turquesas e
brilhantes escondida entre as hastes das flores.
Emocionada, colocou-a no pulso e trocou de roupa depressa.
Desceu correndo as escadas que iam dar na porta dos artistas e encontrou 
o marqus esperando por ela.
Estava magnfico com sua capa e o alfinete de gravata, uma prola 
perfeita, impecavelmente colocado.
Rosie teve a sensao de que uma onda de amor por aquele homem a 
envolvia.
- Como pode ser to gentil, to maravilhoso para mim? perguntou enquanto 
subia na carruagem dele.
- Achei que a pulseira lhe ficaria bem.
Jantaram no Romano's, onde Rosie, de to apaixonada que estava, sentiu 
que todos os presentes a invejavam por estar acompanhada pelo homem mais 
elegante e distinto de Londres. Quando voltaram para St. John's Wood, 
teve o ligeiro pressentimento de que ele a olhava de uma maneira 
estranha. Fizeram amor com paixo. Rosie sentiu-se levada s estrelas.
- Eu o amo! Eu o amo! - disse, pensando que, se ele a pedisse em 
casamento naquele momento, teria a sensao mais maravilhosa da sua vida.
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Ele saiu um pouco mais cedo que o habitual, mas Rosie oensou que fosse
por causa da longa viagem que iria fazer no dia seguinte.
Beijou-a ternamente, mas sem paixo, ao dizer:
Cuide bem de voc, minha cara Rosie.
E foi para a carruagem que estava esperando por ele.
"No vai ficar longe muito tempo", pensou Rosie para se consolar,
adormecendo a seguir.
No dia seguinte, recebeu uma carta do marqus, dizendo-lhe que tudo entre
os dois tinha terminado.
No conseguia acreditar no que estava lendo, mas a sua intuio lhe disse
que era o tipo de carta que ele j devia ter escrito dzias de vezes
antes.
Agradecia toda a felicidade que tinham desfrutado juntos, e supunha que
ela entendesse que mesmo as melhores coisas da vida no duram para
sempre.
Mas como Rosie podia entender que o tinha perdido, se o amava
desesperadamente?
Sem derramar uma s lgrima, sentiu de repente que todo o seu corpo
parecia ter-se transformado num bloco de pedra.
No tinha mais sentimentos, e seu crebro, de certa forma, parara de 
funcionar.
Foi para o teatro, entrando em cena automaticamente.
Parecia uma marionete, movimentada por cordes invisveis.
Nem se deu conta de que o resto do elenco parecia evit-la.
Quando encontrava algum nos corredores, todos tinham pressa em se 
afastar.
Foi Amy quem lhe contou tudo, Amy, a sua camareira, que estava com ela h 
trs anos.
Amy nutria pela patroa uma afeio verdadeira, que nunca a deixava 
mentir.
Ningum no teatro tinha tocado no nome do marqus, mas quando Rosie 
estava quase pronta para voltar para casa, sozinha, Amy falou:
- Agora, no v despedaar o corao por causa desse homem que no a 
merece, nem a qualquer outra mulher que seja suficientemente estpida 
para se apaixonar por ele. Essa jovem Millie vai perceber isso num 
instante!
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As ltimas palavras fizeram com que Rosie ficasse olhando espantada para 
Amy.
- O que  que voc quer dizer com isso?
- Ela  a nova garota que aparece como "primavera" no primeiro ato e no 
quadro de "Diana, a caadora".
- E o que ela tem a ver com o marqus? - perguntou Rosie, com uma voz que 
parecia no lhe pertencer.
-  melhor perguntar a ela mesma, quando voltar de Monte Carlo! O homem
conseguiu convencer o patro a dar-lhe uma semana de licena. H gente 
com sorte!
- No acredito! - gritou Rosie, sabendo que a garota em questo era nova 
na companhia.
Como Millie parecesse to jovem e inexperiente, Rosie sara dos seus 
cuidados para conversar com ela carinhosamente.
Sabia que podia estar to assustada como ela prpria ficara na primeira 
vez que fora ao Olympic com Vivian.
Mal o romance acabou, veio  tona o lado comercial do relacionamento.
O advogado do marqus deu-lhe o prazo de um ms para deixar a casa de St. 
John's Wood.
Fora to tola que'nem perguntara se a casa estava mesmo em seu nome.
Desconfiou que o marqus queria instalar nela uma nova ocupante.
Foi quando Rosie jurou duas coisas para si mesma: primeiro, que nunca 
mais entregaria o corao a mais nenhum homem, segundo, que teria 
dinheiro suficiente para comprar tudo o que quisesse, o dinheiro que 
Vivian j lhe tinha dito que era mais importante do que o amor.
O marqus tinha sido generoso, e ela recebera uma larga quantia em 
dinheiro.
Mas tinha sido suficientemente tola para pagar com esse dinheiro 
vestidos, coisas para a casa, comida e bebida, quando queria lhe fazer um 
mimo.
"Nunca mais voltarei a fazer isso!", jurou Rosie.
A partir de ento, nunca mais deixou que o corao comandasse a cabea, e 
passou a se vender conscientemente.
Nos anos seguintes, a sua vida teve uma verdadeira procisso
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de milionrios que imploravam seus favores e entre os quais ela escolhia 
criteriosamente.
O homem que conseguisse que Rosie fosse sua amante era admirado pelos 
amigos e tinha sempre pontos a seu favor.
Ela, por outro lado, garantia a veracidade do antigo ditado que dizia que 
quanto mais um homem paga, mais aprecia, fazendo-os pagar, e bem.
Nunca mais voltou a comprar nada para si mesma.
A casa em que morava, os vestidos, a comida, os criados, as jias, a 
costureira, tudo lhe era oferecido generosamente.
Assim como o sr. Hollingshead a vestia para as cenas, seus amantes a 
vestiam para o mundo l fora.
No havia ningum no teatro de variedades que possusse melhores jias, 
peles mais valiosas e roupas de melhor qualidade.
Seus dedos eram cobertos de anis preciosos, e uma manta de zibelina 
cobria-lhe os joelhos na carruagem puxada por dois cavalos primorosos.
Os seus empregados usavam librs que rivalizavam com as dos criados da 
realeza.
Era o principal assunto de Londres, e se quisesse deixar o teatro, uma 
dzia de outros teatros se abririam para ela.
Quando chegou aos quarenta anos, sabendo que nunca tinha sido uma 
verdadeira atriz e que seu sucesso era devido apenas  sua aparncia, 
preparou a sua retirada.
A maquilagem j no podia disfarar as rugas que comeavam a surgir. J 
no era mais a deusa primaveril dos contos de fada, como fora durante 
tantos anos.
Orgulhosamente, aos quarenta e cinco e aparentando dez anos menos, Rosie 
abandonou o teatro.
Sabia melhor que qualquer empresrio que no podia mais aceitar os papis 
que poderiam lhe oferecer.
No era uma intrprete, apenas uma atriz de variedades, o que era muito 
diferente.
Todo o seu desempenho teatral havia sido participando de pequenos quadros
muito bem escritos, onde no precisava ter nenhum talento dramtico.
Tinha simplesmente que aparecer linda e extremamente elegante,
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nos vestidos que disfaravam o envelhecimento de seus braos e
mos e da linha do queixo, que comeava a cair.
O orgulho que sempre estivera presente na sua maneira de ser avisou-lhe
que era hora de fechar a cortina, antes que a fechassem por ela.
Despediu-se no fim de uma temporada, e no se surpreendeu quando George
Edwardes, que ficara no lugar do sr. Hollings-, head, no fez presso
para ela participar do elenco do novo espetculo que comearia dentro de
trs semanas.
Tinha decidido recusar qualquer contrato, mas quando constatou que nenhum 
mais tinha aparecido, sentiu-se muito triste.
Toda a amargura da sua vida passada a acompanhava, ao ficar sozinha no
apartamento encantador que dava para o Regent's Park.
Seu ltimo amante o tinha comprado, e ela tomara todas as providncias 
para garantir que no o perderia quando a ligao terminasse.
" meu! Meu!", exclamara para si mesma, sabendo que constitua uma 
pequena e pobre consolao por tudo o que tinha perdido.
De incio, os colegas de trabalho vinham visit-la, mais por curiosidade 
que por carinho.
- Quando voltar ao palco, Rosie?
- Estou gostando muito de no fazer nada - respondia. Contudo, 
gradualmente, as visitas foram rareando, e os convites para almoar e 
jantar tambm.
- Estou sozinha, completamente sozinha!
A amargura tinha-se tornado parte predominante da sua maneira de ser.
Num sobressalto, Rosie viu que Ina olhava para ela, esperando a resposta 
de como poderia ajud-la.
Viu naqueles olhos azuis o mesmo medo que sentira h tantos anos atrs.
Se falhasse, a garota no saberia o que fazer em seguida.
Olhou para a sobrinha, to linda, to inocente, to parecida com ela, e 
teve a sensao de que algum lhe dizia que ali estava o seu
instrumento de vingana, um instrumento atravs do qual repararia todo o
mal que lhe tinham feito.
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Seria louca se no o usasse.
Poderia se vingar daqueles que a tinham ferido, daqueles que a tinham 
abandonado sem mais nada para consol-la, a no ser recordaes.
"Eu lhes mostrarei!", repetiu silenciosamente.
E, em voz alta, com um sorriso que abrandou momentaneamente a habitual 
expresso dura de seus lbios e o cansao do olhar, disse:
- Mas  claro que voc vai ficar comigo, Ina querida, vou ficar muito 
feliz por t-la comigo!
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CAPITULO III

Quando comeara a ganhar dinheiro, Rosie fora suficientemente inteligente
para procurar um bom corretor.
Um dos seus amantes, um banqueiro milionrio, comentara com ela que tinha 
um empregado que era o melhor e o mais esperto corretor de Londres.
Fora consult-lo, e a partir da deixara tudo nas mos do homem, que em 
dez anos triplicou o seu dinheiro.
Na poca em que abandonou a carreira artstica, ela j era uma mulher 
muito rica, porque tinha economizado tudo quanto recebia.
Habituada a poupar, quando ficou sozinha continuou a ter cuidado com todo 
tosto que gastava.
De qualquer forma, alm de roupas e comida, tinha pouca necessidade de 
despender dinheiro.
Amy cuidava dela, e diariamente vinha uma cozinheira preparar as 
refeies, que nunca eram muito complicadas.
Essa mulher tambm lavava o que Amy deixava para ela.
Agora, porm, Rosie tinha um timo pretexto para gastar dinheiro.
Durante todos os seus anos de teatro, mantivera deliberadamente o nome de 
famlia em segredo, obrigando Vivian a fazer o mesmo.
Mais tarde, fizera o marqus dar a sua palavra de honra de que tambm no 
revelaria a ningum que tinha descoberto quem ela era, pois o orgulho a 
impedia de tirar a famlia do alto do pedestal onde se tinha colocado.
O marqus chegou a dizer-lhe que a respeitava muito por essa atitude, que 
poucas mulheres tomariam.
Mas ele a abandonara, e, menos de seis meses depois, casara-se.
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Quando Rosie abriu o jornal e viu o anncio do seu noivado com a filha de 
um duque, julgou que ia desmaiar.
Nunca tinha desejado tanto uma coisa na vida como tornarse esposa dele.
Contudo, mais uma vez se provava que havia sempre interesses superiores
ao amor.
Neste caso no fora dinheiro, mas sangue.
Rosie levou bastante tempo para planejar como iria usar Ina para se 
vingar.
A cada minuto que passavam juntas, via que a garota era exatamente como 
ela fora, aos dezoito anos.
Habituada a morar no interior, tudo em Londres era motivo para Ina ficar 
cheia de excitao, maravilhada.
Admirava o trfego das ruas, os elegantes cavalos e carruagens e os 
cavaleiros que passeavam em Rotten Row.
Ficava encantada com as lojas, e quase perdeu a fala de tanta alegria 
quando Rosie a levou s costureiras.
Primeiro, Rosie ficou em frente do espelho, analisando-se.
No examinava Rosie Rill, a estrela do teatro de variedades, mas lady 
Rosamund Ormond, filha do conde de Ormond e Staverley.
Seu pai, que a tinha condenado todos esses anos e que agora era um homem 
de quase oitenta anos, ainda ficaria perturbado e chocado com o que ela 
pretendia fazer.
Queria feri-lo como ele a tinha ferido.
Observando-se no espelho, viu que, debaixo da mscara de rouge e p, 
ainda conservava a beleza do seu nariz fino e clssico e do formato oval 
do rosto.
Quando sorria, as rugas dos cantos da boca desapareciam.
O encanto que tinha cativado tantos espectadores assduos continuava a 
existir.
Lavou o rosto e voltou ao espelho, sentindo-se momentaneamente nua.
Lady Rosamund Ormond tinha que ter a aparncia distinta, e, se ela 
quisesse, de uma verdadeira dama.
O cabelo, de tanta tintura, parecia mais louro do que antes.
Mandou que o cabeleireiro o pintasse de cinza, para que
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crescesse todo na cor natural. O homem no queria acreditar no que estava 
ouvindo.
- O que est pretendendo, miss Rill? - perguntou com impertinncia. - No 
vai ficar a mesma, se tentar parecer mais velha.
- No estou tentando, estou velha, e quero aparentar a idade que tenho.
Quando ele terminou, estava uma perfeita senhora de cinquenta e tantos 
anos, mas, de certa forma, muito mais atraente do que quando tentava 
desesperadamente recobrar a juventude perdida.
Como no era de comer muito, continuava esbelta. Os vestidos que escolheu 
na costureira mais cara de Hanover Square realavam a sua figura, sem 
tentar torn-la vulgarmente prvocante.
-  um prazer vesti-la, miss Rill - disse a gerente, com toda a 
sinceridade.
Rosie sabia que agora estava igual s outras clientes que compravam na 
mesma loja.
A maioria delas eram aristocratas de vida social intensa, transitando  
volta do prncipe de Gales, em Marlborough House.
Suas fotografias podiam ser vistas em todas as revistas de luxo.
com Ina a coisa era mais fcil.
Rosie comprou-lhe os mais belos e elaborados vestidos prprios para uma 
debutante.
A maioria das moas que vinham a Londres para a temporada no podiam ter 
vestidos to caros.
- Como pode me oferecer coisas to lindas? Sinto-me uma princesa de 
contos de fadas - disse Ina.
-  exatamente como eu quero que se sinta. A partir de agora, tem que se 
lembrar sempre de que  uma princesa e comportar-se como tal.
Ina sorriu para a tia.
Era o mesmo sorriso com que Rosie tinha conquistado tantas plateias.
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A senhora  a minha fada madrinha, e eu lhe agradeo de todo o corao - 
disse ela docemente.
Rosie ficou comovida, mas, sufocando a emoo, decidiu que a nica coisa 
que importava era ensinar Ina a desempenhar bem o papel que lhe cabia 
naquela trama.
Seria um desempenho real, sem as luzes da ribalta.
E, apesar de a garota no saber, seria altamente dramtico.
Quando as roupas ficaram prontas, Rosie pagou a conta sem ao menos 
conferir o total, e anunciou que da a trs dias estariam partindo para 
Monte Carlo.
Ina soltou um grito de alegria e excitao:
- Monte Carlo! Que maravilha!  o lugar que eu mais desejava conhecer! 
Mas papai dizia frequentemente que muita gente, incluindo os bispos, acha 
que  um lugar de pecado por causa do jogo.
- O jogo no vai afet-la, mas todas as pessoas importantes estaro no 
cassino depois do jantar, e ns vamos encontr-las.
Reparou que Amy estava se coibindo de fazer uma dzia de perguntas, por 
causa da presena de Ina.
Rosie j tinha avisado para segurar a lngua, sempre que Ina estivesse 
por perto.
Assim que ficaram sozinhas, Amy perguntou:
- Posso saber o que tem na cabea?
- Estou lanando miss Ina na alta-sociedade!
Amy olhou para ela de soslaio, e depois de alguns instantes, comentou:
- A senhora no me engana!
- Pois bem, ento espere para ver o que acontece - retorquiu Rosie, mas 
Amy no se deu por vencida.
- A senhora est planejando alguma maldade, miss Rosie, e eu quero saber 
o que !
- Se quer mesmo nos acompanhar a Monte Carlo, por favor, vista os 
uniformes pretos que comprei para voc e comporte-se como a camareira de 
uma dama - cortou Rosie, severamente.
- Se a esta altura da vida no souber quais so as minhas obrigaes, 
nunca mais vou aprender!
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- No estou preocupada com as suas obrigaes, mas com as coisas que voc 
diz. Como j lhe disse antes, as camareiras bem-educadas guardam os 
pensamentos para si mesmas, coisa que voc nunca foi capaz de fazer.
- Estou velha demais para mudar! - respondeu Amy imediatamente.
Rosie desatou a rir.
- Ento mantenha seus pensamentos em silncio, at que ns duas estejamos 
sozinhas. Depois pode dizer o que quiser.
- Obrigada pela generosidade! - retorquiu Amy, com azedume, batendo a 
porta ao sair do quarto.
Apesar dos maus modos, Rosie sabia que no haveria nada que impedisse Amy 
de acompanh-las a Monte Carlo.
Chegou o momento de entrar no trem que as levaria de Victoria Station, 
at Dover.
Amy, de uniforme e chapeuzinho preto que ficava muito bem com seus 
cabelos grisalhos, levava a caixa brasonada, que continha as jias de 
lady Rosamund.
Esta estava uma aristocrata to perfeita que poderia ter sado de um dos 
quadros que, porventura, pudessem ter escrito para ela desempenhar no 
teatro.
- De agora em diante, vou usar meu verdadeiro nome, e vocs, por favor, 
esqueam-se de que alguma vez fui Rosie Rill, a grande estrela do teatro 
de variedades.
- Eu nunca poderei esquecer, tia Rosamund, e estou certa de que aqueles 
que a virem tambm no vo esquecer como era linda. Li muitas vezes no 
jornal que a senhora era chamada ao palco inmeras vezes em cada 
espetculo, porque a audincia a amava.
- Isso tudo faz parte do passado - disse Rosie, com firmeza. - Agora 
voltei a ser eu novamente, e vocs duas tratem de no se esquecer disso.
No lhes contou, contudo, que tinha mandado uma nota annima para os dois 
jornais principais de Monte Carlo.
Nela, informava que lady Rosamund Ormond, a antiga Rosie Rill do teatro 
de variedades, chegava ao Hotel de Paris, com sua sobrinha, miss Ina
Westcott, neta do nono conde de Ormond e Staverley.
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Seguramente haveria jornalistas esperando por elas, quando desembarcassem
da carruagem-leito.
E no se enganou.
Um fotgrafo pediu-lhe uma pose, mas ela se afastou, desdenhosamente.
Quando estavam dentro da carruagem que as levaria ao Hotel de Paris, 
ignorou os reprteres que se amontoavam junto da porta, dizendo:
- Por que veio para Monte Carlo, miss Rill?  verdade que seu verdadeiro 
nome  lady Rosamund Ormond?
- Eu disse que eles nunca esqueceriam a senhora- comentou Amy, toda 
satisfeita, quando a carruagem comeou a andar.
- Eles ficaram todos entusiasmados ao ver a senhora, tia Rosamund -
exclamou Ina.
Ficaram instaladas em uma das melhores sutes do hotel, com varandas que 
davam para o porto e para o mar.
-  to lindo, exatamente como eu imaginei - exclamou Ina, olhando 
maravilhada para os magnficos iates, ancorados naquelas guas azuis, e 
para as flores que enchiam de colorido as varandas.
Podiam ver um pouco do palcio, numa colina atrs do porto.
- Lindo, lindo, lindo! Oh, tia Rosamund, como poderei agradecer por ter 
me trazido para c?
Rosie no respondeu.
Estava lendo atentamente, no Journal de Mnaco, o pargrafo que ela mesma 
tinha redigido.
"Lady Rosamund Ormond, filha do nono conde de Ormond e Staverley, chegar 
ao Hotel de Paris com sua sobrinha miss Ina Westcott.
Lady Rosamund Ormond era conhecida como Rosie Rill, a estrela do teatro 
de variedades, e muitos ho de se lembrar do sucesso que obteve nos 
seguintes espetculos: Ali Bab, A Garota Bomia, Ilha dos Solteiros, O 
Hipcrita, etc." Rosie sabia que aquela nota seria lida e relida por 
todos em Monte Carlo.
45
O interesse aumentaria durante o dia, enquanto um grande nmero de 
pessoas aguardava que aparecesse pela primeira vez.
- Quando poderemos sair para dar um passeio, tia Rosamund? - perguntou 
Ina, assim que Amy comeou a tirar as coisas das malas.
- Ns ficaremos aqui at a noite.
- At a noite? - repetiu Ina, espantada.
- Sim, querida, at a hora de descermos para jantar. Depois, iremos 
visitar o cassino.
- Mas, tia Rosamund, est um sol lindo, e temos tantas coisas para ver!
- Ter muito tempo para ver tudo, e como estou muito cansada, e Amy muito 
ocupada para a acompanhar, voc vai ficar aqui.
- Claro... se  assim que deseja - respondeu Ina docemente, mas 
desapontada. - vou ajudar Amy a arrumar as roupas.
Havia muito o que fazer. Tinham trazido uma bagagem enorme.
S os vestidos novos de Ina enchiam todo o seu guarda-roupa e mais um
armrio na passagem que ligava o seu quarto com a sala.
Ela parecia viver um sonho. Passava o tempo indo  janela para ver os 
iates saindo e entrando do porto.
 medida que o dia ia passando, as guas do mar tornavam-se cada vez mais 
azuis e a bandeira hasteada no alto do palcio tremulava ao vento.
Era tudo maravilhoso, e ela no se conformava de ter que ficar ali 
trancada, com tudo o que havia para ver l fora.
Mas sabia que seria uma ingratido questionar alguma ordem da tia, que 
estava sendo to boa para ela.
Quando poderia ter imaginado, ou mesmo esperado, que a tia a recebesse de
braos abertos, quando fora procur-la, e i ainda por cima que a cobrisse
de vestidos elegantes e a trouxesse para Monte Carlo?
46
Deitada na cama do outro quarto, Rosie lia cuidadosamente a lista das 
pessoas que estavam no principado.
A grande maioria eram ingleses, incluindo o duque e a duquesa de
Marlborough, lorde Victor Paget, lorde Farquhar.
Havia tambm o barbado duque de Norfolk, o conde de Rosslyn e Lily
Langtry.
Entre os que estavam para chegar, liam-se os nomes do rei de Wurkemberg,
os gro-duques Serge e Boris da Rssia, o gro-duque de Luxemburgo,
prncipe Kotchoubey.
Rosie lembrava-se de que ele andava sempre com um cachorrinho de 
estimao, um dachshund, enquanto o prncipe Mirza Riza Kahn, da Prsia, 
usava um fez.
Lia os nomes em voz alta, e de repente parou e fitou atentamente o 
jornal, para se certificar de que no estava enganada.
"O marqus de Colthaust, acompanhado de seu filho, o visconde Colt."
Estava com sorte. Era o que ela queria.
Ele estava ali, em Monte Carlo, e ainda por cima com o visconde Colt, que 
era o que ela mais tinha desejado.
Amy trouxe as novidades do teatro, que ela, orgulhosa demais, no queria 
obter por seus prprios meios.
Vrias vezes ao longo desses anos, ela, afastada do mundo teatral porque 
no brilhava mais como estrela, foi assistir a espetculos disfarada, 
para que ningum soubesse quem era.
Vestia roupas simples, e escondia-se atrs de culos escuros e um vu que 
cobria seu rosto. Sentava-se sempre na ltima fileira da plateia, de onde 
apreciava s atrizes, desfilando como ela tinha feito durante tantos 
anos.
Vendo os quadros que lhe tinham dado tanto sucesso pela sua beleza, no 
pelo desempenho, sentia que no tinha perdido nada. Nem ao menos tinha 
saudade dos velhos tempos.
No tinha inveja das flores que a nova estrela recebia.
No tinha inveja dos aplausos que as novas garotas provocavam e de ouvir 
dizer que eram mais belas do que nunca.
Amargura, era apenas o que sentia.
Tinha perdido o lugar em ambos os mundos a que tinha pertencido.
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Recordando nitidamente o seu lar - uma enorme manso rodeada pelos cinco 
mil acres de terra que pertenciam a seu pai -, o teatro de variedades, 
apesar de ter sido a sua vida por tantos e tantos anos, parecia cada vez 
mais irreal. Na verdade, sempre fora uma estranha naquele meio. Na sua 
vida, s dois homens haviam tido importncia. Primeiro, Vivian Vaughan, 
que tinha morrido. Tinha lido h trs anos atrs que tivera um ataque do 
corao.
No sentiu nenhuma emoo ao saber da sua morte. Nada, alm da memria de 
um rosto bonito que, aos dezoito anos, a tinha privado de tudo o que lhe 
era querido e familiar.
Em troca, tinha recebido uma felicidade estranha e ilusria, durante um
curto espao de tempo.
Erradamente ele a convencera de que ele era a nica coisa que ela 
possua, e quando o perdeu, Rosie ficou absolutamente s.
A realidade fora essa mesma.
Depois, como um meteoro cruzando o cu, apareceu o marqus de Colthaust.
O amor que sentira por ele fora bem diferente das romnticas emoes da 
Rosamund Ormond de dezoito anos.
Mas ele a tinha deixado, e a agonia de perd-lo ainda a mantinha acordada 
de noite.
Durante o dia, continuava sofrendo tanto que preferia morrer. E agora, 
ele estava ali! Ali! Devia estar um velho. Se ela tinha cinquenta e 
cinco, ele devia ter perto de setenta, e, segundo Amy, o filho seguia 
seus passos.
- Dizem que Lilly Layman est to apaixonada pelo visconde que, quando 
entra em cena, esquece-se do texto.
- Como  que voc sabe? - perguntou Rosie.
- Fofocas do teatro.  a terceira garota que se apaixonou por ele este 
ano. So todas iguais, apaixonam-se pela aparncia dele, sua lngua de 
mel e seu dinheiro. Um galho do mesmo tronco,  isso o que ele !
Sabendo que Rosie morria de curiosidade, Amy ia ao teatro mais vezes do 
que de costume.
48
As novas camareiras ficavam sempre satisfeitas em ver Amy. Ficavam
fofocando e bebendo cerveja, ou, se uma das atrizes era mais generosa,
champanhe.
Amy depois voltava para casa correndo, para contar as novidades a
Rosie.
No acontecia nada no teatro que no se ficasse sabendo imediatamente.
Cada garota competia com as outras para ter o maior nmero de 
admiradores.
Concentravam a ateno naqueles que lhes proporcionavam os momentos mais 
agradveis, as jias mais caras e o maior nmero de festas.
O visconde Colt, tal como o pai, tinha as suas prprias regras.
Divertia-se muito mais em conquistar uma garota que lhe interessasse do 
que em frequentar festas.
Ele as conquistava mais por ser atraente e irresistvel, do que por ser
rico e importante.
"Lngua-de-mel  uma descrio perfeita", pensava Rosie, lembrando-se das
coisas que Lionel Colthaust costumava dizer-lhe.
Como uma coelhinha idiota, hipnotizada por uma cobra, ela no conseguira 
resistir.
Baseada em tudo o que Amy lhe contava, imaginou que o visconde, tal como 
o pai, sentiria atrao por garotas jovens e pouco sofisticadas.
Rosie sabia que tinha sido o seu cabelo louro, seus olhos azuis e sua 
infantil crena no amor que a haviam tornado atraente para ele.
Fora tudo muito natural, porque ela tinha encontrado o amor da sua vida.
Ele a envolvia na beleza e na felicidade, e ela ignorava tudo o que 
pudesse ser desagradvel.
S quando o marqus a deixou  que percebeu tudo o que tinha perdido.
A realidade que tinha que encarar era dura, cruel, e at mesmo brutal.
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Aprendeu a pensar uma coisa e a dizer outra, a ter os olhos brilhando
como estrelas, sem deixar transparecer seus sentimentos.
Aprendeu a dizer aos homens aquilo que eles queriam ouvir e que, 
invariavelmente, era um elogio.
A jovem Rosie nunca teria sido capaz de forjar um plano de vingana 
contra quem quer que fosse, muito menos contra a sua famlia ou contra o 
homem que tinha amado.
Mas a Rosie que tivera que lutar por si prpria, repetindo milhares de 
vezes para si mesma que nada mais contava a no ser o dinheiro, era uma 
pessoa completamente diferente.
Estava representando o seu prprio drama, e parecia que o destino estava 
do seu lado.
Tudo o que queria haveria de acontecer.
O visconde Colt estava jantando com amigos, no Hotel de Paris.
O enorme salo de jantar estava repleto e, pelas nove horas, parecia no 
haver uma nica cadeira vazia.
No entanto, a mesa mais bem situada da sala, junto a uma janela, 
continuava vazia.
No dava muito na vista, porque em todas as outras mesas mulheres 
cobertas de jias e plumas ofuscavam todos os olhares.
Os cavalheiros, elegantes com suas casacas e peitilhos engomados, 
completavam harmoniosamente o conjunto.
Era um luxo que no podia ser suplantado, nessa poca do ano, em qualquer 
outra parte da Europa.
- Devo dizer, Victor - comentou lorde Charles -, que raramente vi tantas 
mulheres bonitas num s lugar, a no ser,  claro, no teatro de 
variedades.
O visconde riu.
- Sinto-me inclinado a concordar com voc, Charles, e no estou bem certo 
se as atrizes no sero mais divertidas individualmente, apesar de ter 
que admitir que esta coleo de mulheres , sem dvida, excepcional - 
retorquiu o visconde.
Olhou para uma das mais famosas bailarinas clssicas da
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Rssia, depois para uma conhecida beldade, membro do grupo iviarborough
House.
Numa mesa mais distante estava a amante do gro-duque Alexis.
Diziam que sua beleza fora a causa do suicdio de trs homens, quando
deixara de se interessar por eles.
Seguindo o olhar dele, Lorde Charles riu veladamente. Depois, reparou
na expresso do rosto do amigo, que deixava transparecer que o atual
romance do visconde estava chegando ao fim.
A mulher que tinha trazido para Monte Carlo e que estava hospedada com
ele na vila do pai era encantadora.
Aos trinta e cinco anos, lady Constante Fane tinha enterrado um marido
e fugido do segundo, para ficar com o visconde.
Era cinco anos mais velha do que ele; no entanto, seria impossvel haver
mulher mais bela e mais sofisticada na arte de atrair um homem.
- O que Constance no sabe sobre a arte do amor poderia ser escrito num
selo de correio! - comentara algum, recentemente.
Como o homem a quem o comentrio fora dirigido sabia que o visconde
estava na sala, disse em voz baixa ao amigo que tinha falado:
- Colt levou vantagem porque, tal como o pai,  muito entendido em
mulheres!
Lorde Charles imaginava em quem os olhos errantes do visconde recairiam
agora.
O marqus, que estava na vila acamado, com gota numa perna, fora
conhecido, durante anos, como "o marqus vicioso".
No havia dvida de que seu filho Victor dava seguimento  reputao do
pai.
" busca da beleza", disse lorde Charles para si mesmo, sem saber se lady
Constance saberia que o seu reinado estava terminando.
Observou-a colocar a mo no brao do visconde para despertar a sua
ateno.
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- Em que est pensando, Victor? - perguntou ela com uma voz doce e 
sedutora, que fazia de cada palavra uma carcia.
- Estava pensando que voc, sem dvida nenhuma,  a mulher mais bonita 
que est aqui - respondeu ele.
Era a resposta que ela esperava ouvir. Mas, para lorde Charles, a 
resposta soou automtica demais, sem sinceridade.
Nesse momento, os presentes viraram a cabea para ver as retardatrias 
que atravessavam o salo, dirigindo-se para a mesa vazia, junto da 
janela. Essa mesa ficava ao lado da de lorde Charles e do visconde.
Ambos olharam com interesse para a distinta senhora, que se aproximava 
com tanta graciosidade que parecia um navio deslizando ao vento.
Ambos tiveram a sensao de j a ter visto.
O rosto era familiar, mas no conseguiam identific-lo.
Imediatamente atrs vinha uma moa.
Parecia a personificao de Prosrpina, despontando das trevas de Hades.
Era loura, a beldade tpica inglesa, mas de certa forma diferente desse 
tipo de beleza.
Os olhos enormes, azuis como as guas do Mediterrneo, pareciam preencher 
todo o seu pequeno rosto.
O cabelo, penteado com simplicidade, tinha o dourado do sol, e a enfeit-
lo apenas um pequeno boto de rosa.
Era a nica nota de cor, pois o vestido que usava era branco.
Mas mesmo esse vestido branco era diferente dos vestidos das outras 
jovens.
Entremeado de prata, brilhava como uma gota de orvalho cado de uma flor.
Sentou-se  mesa, e o visconde e lorde Charles no conseguiam afastar o 
olhar.
- Quem  ela? - perguntou lorde Charles, sem conseguir conter a 
curiosidade.
- No fao a menor ideia! - respondeu o visconde. - Mas  a criatura mais 
linda que meus olhos j viram!
Reparou que o matre se afastava da mesa para onde as tinha encaminhado.
Chamou-o.
52
Quem so as senhoras que acabam de chegar? - perguntou num francs 
perfeito.
So lady Rosamund Ormond, milorde, de quem Sua Senhoria, seu pai, se 
lembrar como a estrela de teatro, madame Rosie Rill, e a sobrinha, mm 
Ina Westcott.
- Rosie Rill? No posso acreditar! - balbuciou o visconde, entre dentes.
Assim que o maitre se afastou, perguntou a lorde Charles:
- Ser que o homem no est enganado? Ele disse mesmo Rosie Rill?
- Agora que mencionou esse nome, acho que a estou reconhecendo. S a vi
uma vz, antes de partir para Eton, mas estou certo de que  ela.
- E  sua sobrinha! - disse o visconde, como se quisesse se certificar de 
que ela era real.
Nesse momento, lady Constance disse suavemente, para desviar a ateno 
dele:
- Voc est me negligenciando, Victor querido!
- Como pode pensar uma coisa dessas? - perguntou o visconde, no 
resistindo a olhar novamente para o rosto absurdamente bonito da jovem 
sentada na outra mesa.
Comparando as duas, lorde Charles achou que lady Constance, de repente, 
parecia muito velha.
Talvez fosse uma iluso de tica, ou talvez porque a recmchegada era 
muito jovem, jovem demais para estar em Monte Carlo.
Tivesse a idade que tivesse, era de uma beleza mpar, e lorde Charles 
agora tinha a certeza absoluta de que, para o visconde, lady Constance 
era assunto encerrado.
Apesar de t-la trazido para Monte Carlo, ela certamente teria que
arranjar outra pessoa para lev-la para casa.
com pena, lorde Charles comeou a conversar animadamente com ela.
Falaram dos vrios amigos comuns que j tinham encontrado desde que 
haviam chegado e de outros que ele esperava at o final da semana.
- Disseram-me que esta  a melhor temporada que Monte Carlo j conheceu - 
disse ele.
53
Mas s ento reparou que lady Constance no o estava escutando.
O visconde tinha deixado de lado o fingimento e no parava de olhar para 
Ina.
Rosie deu-se conta da sensao que a entrada das duas provocara e do 
interesse que despertavam nos ocupantes da mesa ao lado.
Mas Ina olhava  sua volta como uma criana que tivesse acabado de entrar 
num pas encantado.
- Nunca vi tantas jias, tia Rosamund! E no sabia que as senhoras usavam 
plumas de avestruz nos cabelos,  noite.
- Usam muito mais durante o dia.  sinal de que ou so muito ricas ou que 
o cavalheiro que as acompanha pode proporcionar-lhes o que h de melhor!
Falara irrefletidamente, e s depois reparou que no era o tipo de coisa 
que pudesse comentar com Ina. Felizmente, ela no estava prestando muita 
ateno.
- Por que todo mundo vem aqui? A comida  melhor que nos outros lugares?
- No  a comida que os motiva, mas as companhias explicou Rosie. - As 
mulheres que visitam Monte Carlo querem ver e ser vistas. Esta terra  o 
cenrio perfeito para os ricos, as pessoas de sucesso e as beldades.
Ina desatou a rir.
- Oh, tia Rosamund, a senhora diz coisas de um jeito to engraado! De 
certa forma, tudo isto mais parece uma pea de teatro do que a realidade.
- E  exatamente o que  - respondeu Rosie, olhando de soslaio para a 
mesa do lado.
"Fui muito esperta!", disse para si mesma, reparando na expresso do 
visconde ao olhar para Ina.
Ela tinha dado uma generosa gratificao ao matre, para ficar na mesa ao
lado da que estava reservada em nome do visconde Colt. E tinha valido bem
a pena.
Agora, a no ser que estivesse enganada, a cortina ia subir e o drama, o
seu drama, ia comear.
Suspirou, satisfeita, e pediu meia garrafa de champanhe e gua mineral 
para Ina.
54
Nem lhe perguntou o que queria beber, pediu o que achava prprio para
uma jovem daquela idade.
Da mesma maneira, tinha encomendado vestidos que, sabia, tornariam a sua 
protegida o alvo de todos os olhares, quando entrassem no salo de 
jantar.
"A juventude tem um brilho e um encanto todo peculiar", pensava.
Lembrava-se claramente de ter provocado um murmrio geral nos homens da 
plateia, na primeira vez que subira ao palco.
E no fora s por ser bonita, mas por personificar o ideal que todos 
continham no corao e que nunca esperavam ver.
"E com isso lucrei apenas uma breve alegria com dois homens, um que 
preferia dinheiro ao amor e o outro, sangue azul", pensou, cinicamente.
Olhou novamente para o visconde, sentindo que o odiava por ser filho de
quem era e por ser to parecido com o pai.
H muito tempo lorde Colthaust tinha olhado para ela como seu filho 
olhava agora para Ina.
H muito tempo ele lhe tinha falado com sua voz baixa e profunda, como se 
ela fosse a nica mulher no mundo, aprisionando seus olhos e seu corao 
com tanta beleza.
Por instantes, voltou a sentir no peito a dor, a mesma agonia em que 
ficou quando ele a deixara, a misria que a invadira quando fora at o 
rio Tamisa, achando que a nica soluo para o seu sofrimento era jogar-
se naquelas guas geladas.
Mas no tinha morrido, continuara vivendo.
E tinha jurado que um dia, de alguma forma, iria mostrar a Lionel 
Colthaust, a Vivian Vaughan e ao pai que no podiam venc-la.
Por mais que tentassem, no tinham fora suficiente.
"Eu os odeio! Odeio tudo o que representam, tudo aquilo por que lutam, 
tudo aquilo em que acreditam e tudo o que eles acham importante!", 
pensou.
Queria poder gritar alto aquele desafio, para que o visconde a pudesse 
ouvir e fosse contar ao seu pai que ele era o responsvel por aquela
exploso de raiva.
Em vez disso, fez um comentrio leve, que provocou a risada de Ina, um 
som jovem e espontneo, que fez aparecer duas
55
covinhas de cada lado da boca e tornou seus olhos mais brilhantes do
que j eram.
O visconde observava tudo, e Rosie sabia disso.
Lembrava-se do pai dele dizendo que, quando ela ria, era o riso mais 
bonito e alegre que ele j tinha ouvido.
"Eles no vo rir, quando eu levar o meu plano at o fim", jurou, 
vingativa.
Bebeu um pouco de champanhe para pensar com mais clareza no que devia 
fazer quando o jantar terminasse.
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CAPITULO IV

Deliberadamente, Rosie prolongou o jantar, at que o salo estivesse 
praticamente vazio, para depois ir para o cassino.
Atravessou a enorme sala de jogo com uma expresso de desdm estampada no 
rosto.
Ina, seguindo atrs, olhava cheia de excitao para os crupis, sentados 
como sentinelas na extremidade de cada mesa.
Os jogadores eram exatamente como ela esperava.
As senhoras mais velhas, com grandes chapus de plumas, seguiam 
avidamente o rolar da pequena bola branca da roleta.
Os velhos, com mos de garra, seguravam firmemente suas fichas.
As mulheres de cabelo pintado, exuberantemente vestidas, bajulavam 
qualquer homem que ganhava.
A entoao dos crupis, os gritos de alegria quando algum ganhava, era 
tal e qual o que Ina tinha imaginado, mas ainda mais dramtico.
Sua tia dirigiu-se para a sala privativa e foi cumprimentada por 
empregados de libr.
Ali, a atmosfera era bem diferente.
Para comear, era muito mais tranquila.
As mesas no estavam to cheias, havia flores, um carpete macio e janelas 
abertas para a noite.
Sentia-se a mesma dramaticidade; no entanto, como Ina disse para si 
mesma, mais aristocrtica e controlada.
Rosie foi andando devagar por entre as mesas, ignorando diversas cadeiras 
vazias onde poderia ter-se sentado.
Parecia estar reparando apenas no jogo, mas a verdade  que procurava uma 
certa pessoa.
Quando a viu, parou e ficou olhando para o crupi, que tentava os 
jogadores:
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- Senhoras e senhores, faam o jogo.
O visconde Colt estava de p atrs da cadeira de lady Constance.
Ela levantou o rosto adorvel para perguntar em que nmero ele queria que 
ela apostasse.
- Sinto que estou com sorte esta noite, Victor! E no poderia ser de 
outra forma, uma vez que estou com voc! Qual  o seu nmero favorito?
O visconde pensou, sarcasticamente, que todas as mulheres confiavam mais 
em sinais e smbolos do que na prpria intuio.
Havia pessoas no cassino que acreditavam que as coisas mais 
extraordinrias iriam influenciar as cartas ou a rodada da roleta.
Um homem andava sempre com sal no bolso.
Outro tinha uma aranha numa caixa, e a maneira como a aranha se movia era 
a indicao para que ele apostasse no preto ou no vermelho.
Uma mulher acreditava piamente num pedao de corda que tinha servido para 
enforcar um criminoso.
Outra consultava uma cigana todas as noites antes de ir para o cassino.
Para o visconde, esse tipo de gente era to ridcula quanto as suas 
supersties, e to aborrecida como os prprios jogos.
No gostava de jogar, e nessa noite mesmo tinha comentado com Charles:
- Dez minutos no cassino parecem-me dez horas. No tenho intenes de me 
demorar.
- Muito bem. Afinal de contas, voc tem seus divertimentos em casa - 
respondera lorde Charles, olhando para lady Constance enquanto falava e 
provocando a risada do visconde.
Ia comear a se afastar para ver se encontrava alguma pessoa com quem 
conversar, deixando lady Constance perder  vontade o dinheiro que lhe 
tinha dado, antes de ir ter com ele, quando uma senhora esbarrou nele.
Todas as fichas que ela tinha na mo espalharam-se pelo cho.
- Desculpe, lamento muito! - exclamou Rosie - Algum me empurrou.
-  o que inevitavelmente acontece neste lugar - respondeu
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o visconde. - H sempre gente com pressa de perder dinheiro, ou,
depois de perder, de correr para se suicidar!
Rosie desatou a rir, enquanto Ina se abaixava para apanhar as fichas que 
tinham cado.
O visconde fez o mesmo, e, ao tentar pegar a mesma ficha que Ina, tocou 
nos dedos dela. Seus olhares se encontraram.
Era to linda que, por momento, ele esqueceu-se de onde estavam e do que 
estava fazendo.
S conseguia olhar para ela, com a mesma sensao de irrealidade que 
tinha sentido no salo de jantar.
Envergonhada, ela se levantou.
Ele tambm se ergueu, segurando uma ficha com dois dedos.
Continuava a olhar para Ina, e quase levou um susto quando ouviu Rosie 
dizer:
- Creio que essa  a ltima ficha que deixei cair. Muito obrigada.
Antes que ela se afastasse, o visconde conseguiu recobrar a voz, dizendo:
- Posso apresentar-me? Creio que conhecia meu pai, o marqus de 
Colthaust. Ouvi-o falar na senhora.
- Mas  claro! - exclamou Rosie, fingindo-se admirada.
- Conheci seu pai, h muitos anos atrs. Ele ainda vive?
- Perfeitamente, mas teve um ataque de gota e est confinado na vila.
- Lamento saber disso. Gota  uma doena que aflige muito.
-  verdade. Meu pai ficaria muito satisfeito em saber que a senhora est 
em Monte Carlo.
Rosie inclinou a cabea graciosamente. Vendo que ela se preparava para se 
afastar, o visconde apressou-se em dizer:
- Posso servi-la em alguma coisa?
Falava com Rosie, mas seus olhos estavam em Ina. com relutncia, como se 
no achasse muito correto, Rosie respondeu:
- Talvez deva apresentar minha sobrinha, Ina. Este  o visconde Colt, 
cujo pai eu conheci h muito tempo atrs, quando era um pouco mais velha 
que voc.
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na sorriu, e foi como se o cassino ficasse subitamente inundado de sol.
Para ela, o visconde era o homem mais lindo que j tinha visto.
Estendeu-lhe a mo, sentindo que os dedos dele transmitiam uma vibrao 
muito forte.
Como no estava habituada a usar luvas, tinha-as tirado ao entrar na sala 
privativa.
A tia no tinha reparado, e ela nem se dera conta de que mais nenhuma 
senhora presente estava sem luvas.
O visconde segurava sua mo e, quando a fitou, teve a sensao de que 
seus olhos diziam coisas muito mais importantes do que seus lbios 
pudessem pronunciar.
- Estou encantado em conhec-la - disse, com uma voz profunda. - Quando a 
vi durante o jantar no Hotel de Paris, no acreditei que fosse de carne e 
osso!
Ina deu uma risada, respondendo:
-  o que estou achando, que nada disto  real. Estou com medo de acordar 
de um sonho.
Rosie soltou uma exclamao que soou como uma intromisso s duas pessoas 
que estavam a seu lado.
- Estou com o palpite de que devo jogar - disse ela. Depois acrescentou, 
como se s naquele instante se tivesse
lembrado:
- Ser que podia fazer o favor de tomar conta da minha sobrinha por uns 
minutos? Ela nunca esteve num cassino, e realmente no gostaria de deix-
la sozinha.
- Claro! Ser um prazer!
Havia uma cadeira vazia na mesa perto de onde lady Constance estava 
sentada.
Rosie encaminhou-se rapidamente para l e sentou-se.
- Quer jogar? - perguntou o visconde a Ina.
- No, claro que no e, alm do mais, no tenho dinheiro.
Falou com toda a naturalidade, deixando transparecer que nem lhe passaria 
pela cabea que ele bancasse o jogo, como tinha feito com lady Constance.
- Nesse caso, gostaria de lhe mostrar algo que voc deve apreciar.
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Ina olhou para ele, intrigada.
Pegando-lhe no brao, ele a guiou por entre a multido at uma
antecmara onde havia pessoas bebendo.
Uma grande janela francesa abria-se para o jardim.
Ina atravessou-a olhando para as palmeiras, recortadas contra o cu 
estrelado.
Foram andando pelo gramado, sem falar, at verem embaixo as luzes do 
cais.
Os iates refletiam-se no mar, proporcionando a mesma cena bonita que ela 
tinha apreciado da janela do seu quarto, enquanto se vestia para jantar.
quela hora, em que as estrelas comeavam a desaparecer sob o brilho da 
lua, era mais linda ainda, e, de certa forma, mais irreal.
Ina olhou para o porto, depois para o cu, inconsciente de que o marqus
s tinha olhos para ela.
- Em que est pensando?
Sem se voltar, como ele esperava, ela continuou olhando para a lua, e 
respondeu:
- Estava lembrando que meu pai disse uma vez que, quando vemos uma vista 
to linda assim, ouvimos uma boa msica ou escutamos um belo poema, o 
nosso corao se eleva, tal como numa prece.
Ina falava como se estivesse pensando alto, e o visconde percebeu que 
suas palavras no eram estudadas, mas traduziam fielmente seus 
pensamentos.
- Ento voc estava rezando... Posso perguntar qual a graa que queria 
obter?
- No estava pedindo nada, apenas agradecendo a Deus por estar aqui e por 
estar sendo incrivelmente feliz.
Como continuava olhando para cima e ele queria sua ateno, disse:
- Venha, vamos sentar-nos. Conte-me por que se sente assim. Encaminhou-a 
para um banco, colocado junto a uns arbustos em flor, entre as palmeiras.
Obedientemente, como uma criana, Ina sentou-se. O visconde virou-se para
ela, com o brao apoiado nas costas do banco.
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- Agora conte-me sobre voc.
- Eu preferia falar sobre Monte Carlo. Ouvi falar muito nesta cidade, mas 
no fazia ideia de que pudesse ser to fantstica e, ao mesmo tempo, to 
diferente.
- Parece uma contradio. mas  o que eu sinto - continuou, fazendo um 
pequeno gesto com as mos.
Torcendo levemente os lbios, o visconde pensou que esse no era o tipo 
de conversa que estava acostumado a ter com mulheres.
Sabia muito bem que era mais bonito e tinha um ar mai distinto do que 
qualquer dos seus contemporneos, e estava habituado a que as mulheres, 
qualquer que fosse a idade, o achassem irresistvel.
Elas praticamente se atiravam em seus braos, antes mesmo de ele lhes 
perguntar o nome.
Tinha o pressentimento de que esta jovem e linda garota no estava 
pensando nele como homem, mas apenas como outro morador da bela e 
encantada Monte Carlo!
- Mora com sua tia h muito tempo? Ina abanou a cabea.
- Apenas h duas semanas.
O visconde ficou intrigado. Quem sabe se Rosie Rill no trouxera essa 
jovem com o firme propsito de chamar ateno?
- Voc est me deixando curioso. Como  que s conhece sua tia, se  que 
 sua tia, h duas semanas apenas?
- Claro que ela  minha tia! Mas, enquanto papai foi vivo, nunca permitiu 
que eu a conhecesse. Ento, quando ele morreu, fiquei sem dinheiro 
nenhum, e, sem saber como poderia ganhar para o meu sustento, fui para 
Londres pedir a tia Rosamund para me ajudar.
Resumiu a histria com toda a simplicidade, mas, apesar disso, o visconde 
dizia a si mesmo que no era tolo a ponto de acreditar naquela conversa.
Devia haver outra explicao qualquer.
No se lembrava de algum alguma vez ter mencionado em casa, quando ele 
era um garoto ainda, que Rosie Rill fosse lady Rosamund, como ela se 
intitulava agora.
Tinha que perguntar ao pai.
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No momento, achava que tudo aquilo era um embuste, inteligente, admitia, 
mas que no passava de um embuste.
Era tudo um plano mirando atrair um homem rico como ele, no para Rosie, 
que j estava velha, mas para a pretensa sobrinha.
O maitre tinha dito que elas haviam chegado nesse mesmo dia.
Achou melhor atacar o quanto antes. Bonita como Ina era, o melhor era no 
facilitar.
Pelo comportamento de Rosie, no devia ser muito difcil. Tinha aplicado 
um velho truque: deixar cair as fichas no cho e esperar que algum as 
apanhasse.
No s era uma boa introduo, como, no passado, era o mtodo utilizado 
por escroques em cumplicidade com crupis desonestos, para roubar grandes 
quantidades de dinheiro.
No, pensou, Rosie teria que ser muito mais esperta para conseguir 
engan-lo.
Fosse como fosse, no havia dvida de que a sua cmplice era a jovem mais 
atraente que tinha visto em toda a sua vida.
- Que idade voc tem?
- Tenho dezoito anos.
- Voc  muito jovem e muito bonita. E j deve ter ouvido o mesmo elogio 
da boca de muitos homens - acrescentou, sarcasticamente.
- No onde eu morava.
- E onde era?
- No vicariato de meu pai, em Redmarley, Gloucestershire. Falou com tanta 
convico que o visconde quase acreditou. Mas algo o advertia de que era 
tudo muito puro, muito evidente.
Uma histria que ele mesmo poderia ter escrito: uma moa, jovem e muito 
bela, vai a Monte Carlo pela primeira vez.
Fica atordoada com tudo o que v, porque acaba de sair de um vicariato no 
meio dos campos agrestes da Inglaterra.
 apresentada pela falsa tia, uma das mais famosas estrelas do teatro de 
variedades, cujo nome ainda  lembrado com nostalgia, a um rico visconde.
Esse visconde, desde criana, ouve os seus criados falarem sobre Rosie 
Rill.
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Mais tarde, ouve os amigos do pai contarem que a maior ambio da vida
deles fora poder ter a oportunidade de levar Rosie Rill para cear.
Ina, vendo o silncio do visconde, pensou que estava fazendo alguma coisa
errada e, virando-se para ele, disse, um pouco nervosa:
- Eu, eu. acho que devemos voltar. Tia Rosamund pode estar procurando por 
mim.
- Garanto que, logo que algum comea a jogar roleta ou bacar no 
cassino, esquece-se de tudo e de todos. O tempo no existe mais.
- No acredito que tia Rosamund seja assim.
- E eu no acredito que ela seja uma exceo  regra. Todos os que entram 
no cassino so apanhados numa louca teia de aranha, e jogam e jogam, at 
o dinheiro desaparecer.
Ina soltou uma exclamao de protesto.
- Isso no pode acontecer a tia Rosamund! Ns no poderamos mais ficar 
aqui.
- Nesse caso, convidarei voc a ficar comigo. Ina desatou a rir.
- No  muito provvel, uma vez que acaba de me conhecer! Se ficarmos sem 
dinheiro, terei que arranjar algum trabalho em Monte Carlo.
- E o que acha que poderia fazer? - perguntou o visconde, num tom 
definitivamente cnico.
Sabia a resposta, mas queria ver se ela tinha coragem suficiente para 
pronunci-la.
Ela ficou em silncio por uns momentos, depois disse:
-  exatamente o que me preocupava quando fui ter com tia Rosamund. Sabe, 
papai e mame quiseram que eu fosse muito bem-educada, mas um pequeno 
talento artstico e um pouco de conhecimento dos clssicos no  bagagem 
que chegue para ningum ganhar dinheiro para viver.
Fez uma pausa, e como ele no dissesse nada, continuou:
- Tenho pensado muito no assunto, e creio, apesar de poder chocar algumas 
pessoas, que as moas deviam aprender matrias
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que as qualificassem para poderem arranjar emprego, se o destino assim o 
exigir.
- E voc esteve pensando que no havia nada que pudesse fazer?
Ina fez um gesto desanimado com as mos.
Gostaria de tomar conta de crianas pequenas, mas sou... tenho medo de que
as pessoas achem que sou muito jovem.
Suspirou e continuou:
- As governantas tm, normalmente, pelo menos trinta anos, antes que se 
encarreguem da educao de crianas que comeam a andar.
Abanou a cabea.
- Isso significa que tenho que esperar muito tempo, e provavelmente, 
morrer de fome enquanto isso.
- Voc est pintando um retrato muito triste de si mesma.
- No  essa a minha inteno. Mas voc assustou-me, dizendo que tia 
Rosamund podia perder todo o dinheiro no jogo. Ela tem sido incrivelmente 
gentil comigo, e quando eu comentei que estava gastando demais, ela 
respondeu que tinha posses suficientes para me oferecer belos vestidos e 
trazer-me para Monte Carlo, porque ganhou muito dinheiro enquanto estava 
no palco.
"E fora dele, principalmente!" ia dizendo o marqus, contendo-se a tempo.
- Sabendo do sucesso que sua tia fez, voc no se sente tentada a ser 
atriz?
- No... Eu no poderia, a no ser que me visse absolutamente sem 
recursos.
Notava-se um sinal de verdadeiro pavor naquele comentrio.
- Por que no?
- Porque seria uma atitude que meu pai nunca aprovaria.
- Pensei que voc tinha dito que seu pai havia morrido!
- retorquiu o visconde, achando que a tinha apanhado.
- Sim, papai morreu, mas, onde quer que ele esteja, est vendo o que eu 
estou fazendo. E, a no ser que esteja morrendo de fome, nunca farei nada 
que seja contra os princpios dele.
O visconde fitou-a, espantado.
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Aquela tcnica era nova para ele, e antes que pudesse abrir a boca, Ina 
levantou-se, dizendo:
- No quero parecer indelicada, e agradeo muito por teme trazido para 
desfrutar esta vista maravilhosa, mas devo voltar para junto de tia 
Rosamund.
- E se eu lhe implorar para ficar? - perguntou, levantan do-se e ficando 
junto dela.
- Tudo o que nos rodeia aqui  to bonito, que eu gostarin de ficar, mas 
no quero fazer nada que aborrea tia Rosamund que tem sido to boa 
comigo. Voc deve entender.
- Entenderei se voc me disser boa-noite condignamente Ina olhou para 
ele, sem entender.
- Vai-se embora?
- Voc  que est me abandonando - respondeu o vis conde, aproximando-se 
dela e abraando-a.
- Estou pedindo  que voc me deixe dar-lhe um beijo de boa-noite, Ina.
Reparou que, por instantes, ela no tinha entendido bem o que queria.
Ento, com um pequeno grito, empurrou-o, dizendo:
- No. claro que no! No devia fazer-me semelhante pedido.
O visconde segurou-lhe a mo.
- Mas pedi, e estou certo de que no seria o primeiro homem a beij-la.
- Evidentemente que seria, se eu permitisse! No  correto o que est me 
pedindo!
Olhou para o jardim deserto, como se estivesse confusa, e depois disse:
- Talvez tenha sido um erro ter vindo para c com voc. Mame iria me
censurar por isso.
Suspirou, apertando as mos.
- Mas Monte Carlo  to diferente, to inebriante, que. Por favor, por
favor, esquea-se que vim para o jardim sozinha com voc, quando deveria
ter ficado l dentro. E agora, vou voltar imediatamente para junto de
minha tia.
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Afastou-se, antes que ele pudesse impedi-la, e j estava cruzando a porta 
de vidro, entrando no cassino, quando ele conseguiu apanh-la...
- Lamento, a culpa foi minha. Talvez tia Rosamund esteja zangada comigo.
A ansiedade daqueles grandes olhos azuis e o tremor dos lbios no
passaram desapercebidos ao visconde. Ela no podia estar fingindo.
A splica, a agitao, o embarao e, principalmente, a consternao por 
recear ter agido mal pareciam genunas.
Contra a vontade, ouviu sua prpria voz dizendo suavemente:
- Estou certo de que sua tia no saber que no jardim no havia mais 
ningum alm de ns dois, e duvido muito que tenha notado a sua ausncia. 
Mas, se assim foi, prometo que lhe explicarei que no foi culpa sua.
O sorriso de Ina varreu todo o medo que tinha estampado no rosto.
- Obrigada. Seria muita gentileza da sua parte. Para a prxima vez, serei 
mais cuidadosa. Foi uma tontice da minha parte no saber como me 
comportar - disse, encaminhando-se depressa para a mesa onde tinham 
deixado Rosie.
Ela continuava jogando, e quando Ina chegou perto, disse:
- Ganhei um pouco, mas agora, como estamos as duas cansadas,  melhor 
deitarmo-nos cedo.
- Mas  claro, tia Rosamund.
Rosie levantou-se, e, fingindo-se surpresa ao ver o visconde em p, junto 
da mesa, disse;
- Obrigada por ter cuidado da minha sobrinha. Espero que ela no o tenha 
incomodado com muitas perguntas. Nunca esteve em Monte Carlo, nem em 
outro lugar parecido.
- Foi o que ela me contou. Fiquei sabendo que veio de um vicariato em 
Gloucestershire.
Observou atentamente Rosie, ao proferir aquelas palavras, para ver se 
algum piscar nervoso denunciava a mentira. Deviam ter elaborado juntas a 
histria do passado de Ina. Rosie hesitou um momento, antes de falar.
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- Nunca vi a casa de minha irm mais nova. Tudo o que sei foi o que Ina 
me contou.
Antes que o visconde pudesse fazer algum comentrio, ela estendeu a mo, 
dizendo:
- Boa-noite, milorde, e obrigada pela sua gentileza. Fico-lhe muito 
agradecida.
- O prazer foi todo meu.
Rosie comeou a afastar-se, e Ina virou-se, estendendo a mo ao visconde.
- Obrigada, muito obrigada. e no creio que tia Rosamund esteja zangada 
comigo.
- Estou certo que no. Quero v-la amanh. Onde poderemos nos encontrar?
Ina ficou espantada e respondeu:
- Terei que pedir a tia Rosamund.
- Quero estar com voc a ss.
Os olhos de Ina, muito abertos, pareciam ocupar todo o seu rosto, ao
responder:
- Talvez no seja possvel.
- Tudo  possvel quando se quer, e estar com voc  e que mais quero.
Ina riu, um riso to alegre que as pessoas que estavam perto viraram-se 
para olhar para ela.
- No acredito, e mais uma vez acho que no devo aceitar o seu pedido.
- Desta vez, seria seu pai ou sua me que no aprovaria?
- perguntou o visconde, usando de novo um tom sarcstico.
Ina corou, ficando mais linda e, ao mesmo tempo, mais vulnervel do que 
j era.
- Penso que est se divertindo  minha custa - balbuciou, tirando 
rapidamente, como uma pomba assustada, a mo que ele segurava.
Esgueirou-se por entre as pessoas, indo ter com Rosie, antes que ele 
pudesse dizer alguma coisa.
O visconde ficou observando-a, intrigado. Viu-a sair da sala privativa e 
desaparecer.
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Ficou com o estranho pressentimento de que acabava de perder algo muito 
precioso.
De volta  sute, Rosie interrogou Ina.
- O que foi que o visconde lhe disse?
- Ele... levou-me para o jardim, para ver as estrelas, tia Rosamund... e 
a vista do porto - respondeu Ina, nervosa.
- Talvez fosse melhor eu no ter ido, mas quando ele disse que tinha uma 
coisa para me mostrar, eu no sabia o que era.
Olhou para a tia, aflita.
- Todos os que visitam o cassino pela primeira vez, querem ver a vista.  
linda de dia, e mais bela ainda de noite.
Ina soltou um suspiro de alvio.
- S depois de estar l h algum tempo  que pensei que a senhora podia 
se zangar.
- O que foi que vocs conversaram?
- O visconde perguntou de onde eu vim. Respondi que tinha vindo de um 
vicariato em Gloucestershire, e ele pareceu achar esquisito.
- E pediu para voltar a v-la?
- Sim. Disse que queria me ver de novo, amanh.
- Onde e a que horas?
Ina corou, demorando um pouco a responder.
- Ele disse que queria ver-me a ss, mas eu no sabia se a senhora 
permitiria.
- O visconde  um jovem em quem confio plenamente. Vejamos, o que vamos 
fazer de manh? Deixe-me ver. No fomos convidadas para nada importante.
Ina no teve tempo de fazer qualquer comentrio, porque Amy entrou na 
sala.
- Estava quase dormindo quando me chamou. Agora, despache-se para ir para 
a cama. Sabe muito bem que no est habituada a deitar-se tarde.
- Estou gostando muito - contestou Rosie. - J vivi tempo demais para ser 
tratada como criana, e ainda no o suficiente para ir para um asilo de 
velhos!
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Amy desatou a rir.
- Estive conversando com as arrumadeiras, que estavam dizendo que, quando 
desceu, parecia uma verdadeira dama, da cabea aos ps.
- Gosto de ouvir isso.
E reparando que Amy tinha mais alguma coisa a dizer, virouse para Ina:
- Corra para a cama. Temos muito que fazer amanh, e no quero que tenha 
uma aparncia cansada. Boa-noite, criana.
- No estou cansada, tia Rosamund, s excitada. E vou rezar uma prece 
especial esta noite, agradecendo a Deus por ser to boa para mim e ter-me 
trazido para este lugar maravilhoso e excitante!
Beijou Rosie e, dando boa-noite a Amy, foi para o quarto.
- Ela foi um sucesso! Um grande sucesso! - disse Rosie.
- Como poderia no ser, se  igual  senhora, quando a conheci?
- Ela pode ser parecida comigo, mas vai ser muito mais inteligente do que 
eu fui. Vai ter cuidado, ou eu por ela, para que a sua beleza lhe 
proporcione tudo o que ela merece, e ainda muito mais! - afirmou Rosie, 
convicta.
- Acredito. No vai perder esta oportunidade! - afirmou Amy, ajudando-a a 
deitar-se.
Deitada no escuro, Rosie pensava, satisfeita, que tudo estava saindo de 
acordo com os seus planos.
Sabia exatamente o que queria para Ina: um futuro que no fosse dominado 
pela necessidade de dinheiro, como lhe tinha acontecido, nem pelo medo 
constante de perder o que tinha e ficar sem um tosto.
"E, ao mesmo tempo, mostrarei que no me derrotam facilmente. Eles vo 
pagar caro pela maneira como me trataram. S espero feri-los tanto como 
me feriram!", pensou.
A sua nica mgoa  que Vivian no pudesse mais assistir  sua vingana.
Vivian estava morto, mas o marqus e seu pai estavam bem vivos, e esses 
iriam espumar de raiva com o que ela pretendia fazer.
Iam ficar envergonhados, furiosos e humilhados.
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E no poderiam fazer nada. Nada do que pudessem dizer a impediria de
levar avante a sua vingana.
Soltou uma risada na escurido, e sorrindo, satisfeita, adormeceu.
No quarto ao lado, Ina continuava acordada.
No conseguia dormir, com a excitao desse dia. Continuava a ver, como 
num filme, tudo o que lhe tinha acontecido, desde que sara de Londres.
O prprio trem-leito fora uma delcia.
Quando desceu, o sol brilhava, tornando tudo mais colorido e mudando sua
vida.
Saa da primeira etapa de uma viagem de descobrimentos, excitante, 
emocionante e, ao mesmo tempo, assustadora.
Como num caleidoscpio, via as pessoas no salo de jantar 
maravilhosamente decorado, o enorme cassino com suas paredes pintadas e 
as luzes realando as pessoas junto das mesas de roleta.
Mas um rosto persistia em aparecer na sua mente, e um par de olhos a 
mantinha cativa.
Nunca pensara que um homem pudesse ser to atraente e, simultaneamente, 
distante e autocrtico, como o visconde.
Seu pai tinha sido um homem de boa figura, mas possua uma generosidade e 
compaixo intrnsecas que tornavam seu olhar muito diferente daquele do 
visconde.
Este a olhava de um modo que fazia o corao saltar dentro do peito.
Quando estavam sentados lado a lado no jardim, parecia absurdo, mas 
tivera dificuldade em respirar.
Era uma sensao estranha, que se misturava com as estrelas, o luar, as 
palmeiras recortadas no cu. E tambm com as luzes do porto, refletindo
na gua.
- Talvez seja porque sou to ignorante sobre os homens disse para si
mesma. - Por isso  que acho que ele  diferente.
No entanto, sabia que ele era mesmo diferente.
Apesar de ter ficado assustada quando ele dissera que queria
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beij-la, no conseguia deixar de sentir, agora que estava sozinha, que
fora muito tola em ter fugido dele.
Quem sabe se no teria sido maravilhoso que ele a beijasse!
Sua me tinha dito, certa vez:
- Espero que um dia, minha querida, voc encontre algum a quem ame do 
fundo do corao e que retribua esse amor.
Sorriu para a filha, antes de acrescentar:
- Como seu pai e eu nos amamos.
- E foi por essa razo que fugiu com ele, mame?
- Claro que foi. Sabia que nunca poderia amar outro homem como amo seu 
pai, e, se queria ser feliz, como todos queremos ser, tinha que ser com 
ele.
-  muito romntico, mame. S espero ter a sorte de encontrar algum 
como papai, e da para a frente viver feliz para sempre.
- Rezo para que isso acontea, minha querida.
Mas, pensando na escurido, Ina viu que o visconde no era nem um pouco 
como seu pai.
Era muito atraente, mas no tinha a mesma bondade no olhar. Alm do mais, 
as perguntas que lhe fizera eram, de certa maneira, estranhas.
Parecia que ele no acreditava que ela viera de Gloucestershire e que tia 
Rosamund fosse realmente sua tia.
"Deve estar habituado a lidar com pessoas esquisitas", pensou. Voltou a 
ver o rosto dele na escurido, dizendo que queria voltar a v-la no dia 
seguinte, e a ss.
"No vai ser possvel, mas eu quero estar com ele e conversar. Mas se 
quiser me beijar novamente, devo dizer que no." Devia ser maravilhoso se 
ele a abraasse com fora, sem deix-la escapar.
Tinha o pressentimento de que ia vibrar do mesmo modo como quando ele 
segurara sua mo.
No, teria que se comportar com juzo e como uma moa educada, como sua 
me lhe ensinara.
Homens e mulheres no se devem beijar, a no ser que estejam muito
apaixonados e prestes a se casar.
"Se ele me amasse, beij-lo seria a maior glria que poderia me
acontecer", suspirou.
72
Parou de sonhar.
"Mas, se ele est me tratando como uma garota bonita, ou como uma mulher 
fcil... Seria horrvel! "
Subitamente, ocorreu-lhe que talvez por causa da profisso da tia ele 
pensasse que era como as moas do teatro de variedades.
Saam para cear sozinhas com homens, e beijavam os atores quando estavam 
em cena.
Devia ser por esse motivo que seu pai desaprovava a profisso de atriz e 
que sua me nunca falava na irm, a no ser que estivessem as duas a ss.
Voltando ao passado, Ina lembrava-se de ter dito uma vez  me:
- Por que nenhum dos seus parentes aparece para visit-la, mame? Vov 
deve ter ficado zangado quando a senhora fugiu de casa, e suponho que o 
resto da famlia que vivia l tinha que fazer o que ele mandava!
Olhou para a me, atentamente.
- Mas a sua irm Rosamund tambm fugiu, assim, tm algo em comum.
Percebeu a incerteza da me, antes de responder:
- Como seu pai  vigrio, no aprova gente de teatro.
- Por que no?
Sem saber bentomo explicar, acabou por dizer que no era decente uma 
pessoa se exibir para qualquer um que pudesse pagar a entrada, que o povo 
pudesse ver no palco uma aristocrata.
- Quer dizer que uma aristocrata no devia representar, s porque o povo 
pode pagar para v-la?
- Exatamente!
- Mas, sendo assim, a sua irm  uma pecadora, igual s que o papai 
costuma mencionar nos sermes, porque no vo  igreja.
-  muito diferente, mas como esse assunto aborreceria seu pai, no deve 
falar sobre o teatro de variedades quando ele estiver escutando.
Sorriu para Ina.
- Como voc nunca dever conhecer uma atriz, nem saber
73
nada sobre elas, no vale a pena conversar sobre o assunto
com seu pai.
Ina viu que a me falava sinceramente.
Agora, pensava que talvez porque tia Rosamund tinha sido beijada em cena, 
os homens tentavam beij-la tambm fora
do palco.
Por isso o visconde quisera beij-la.
"No posso permitir que ele o faa, e sempre que estiver a ss com ele, 
vou me comportar com toda a decncia, como papai gostaria que eu 
fizesse", afirmou para si mesma, reconhecendo que seria muito difcil.
O visconde possua algo forte, viril e exigente, algo que dificultava 
convenc-lo a no fazer o que bem entendesse. Contudo, no estava com 
medo dele.
A verdade  que queria voltar a v-lo, conversar com ele, ouvir aquela 
voz profunda dizer-lhe como era bonita.
" maravilhoso estar aqui, meu Deus, mas, por favor, no me deixe cair em 
tentao, por mais difcil que seja."
Quase adormecida, murmurou um suave amm e mergulhou num sono profundo.
74

CAPITULO V

Ina acordou cedo, alegre e animada, pulou da cama e correu para a janela.
O sol comeava a dissolver a neblina que cobria o mar, transformando-o em 
coisa irreal, parte de um sonho.
- No precisa ter pressa, quero que miss Rosie durma at tarde. No est 
habituada a deitar-se depois da meia-noite disse Amy, quando veio trazer 
o caf da manh.
Ina deu uma risada.
- Era to tarde assim?
- Era! - afirmou Amy, sem mais comentrios. Depois de ter comido uma 
refeio deliciosa, com croissants
quentes, caf e frutas, Ina vestiu-se.
Usou um dos lindos vestidos que Rosie tinha comprado em Bond Street.
Era to belo que chegou a sentir receio de vesti-lo mas no resistiu  
tentao de ver se o visconde a elogiaria por sua elegncia.
Penteou o cabelo do mesmo modo que o caro cabeleireiro do hotel a tinha 
penteado na vspera, quando Rosie a levara para jantar.
Olhou-se no espelho, achando que tinha sido muito habilidosa, e foi at a 
janela.
A bruma que cobria o mar estava quase desfeita, e o Mediterrneo
resplandecia num matinal azul-prateado.
Bateram  porta.
Ina foi abrir e recebeu um grande cesto de orqudeas das mos de um 
mensageiro.
- Para a senhorita - disse ele, em francs.
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- Deve haver algum engano... - comeou a dizer, mas, reparando num
pequeno envelope que estava preso ao cesto, viu o seu nome escrito.
A caligrafia era forte e cheia de personalidade.
com o corao aos pulos, adivinhou quem era o remetente.
- Merci beaucoup, mas desculpe, no tenho dinheiro para
gratific-lo.
- No se incomode, mademoiselle, o cavalheiro j cuidou disso - respondeu 
o mensageiro, sorrindo e olhando para Ina com ntida admirao.
Ina levou o cesto para o quarto com uma certa reverncia. Nunca imaginara 
que alguma vez pudesse receber um cesto de orqudeas to belas e 
exticas.
Abriu o carto, que dizia:
"Obrigado por ser to bela. Estou esperando por voc aqui embaixo. Por 
favor, no me desaponte.
C"
Leu e releu o bilhete vrias vezes, olhando ora para as flores, ora para 
o papel, admirando a beleza das orqudeas e sentindo-se feliz por ter 
ganhado um presente to sofisticado.
No sabia se poderia descer ou no, e ele estava esperando
por ela.
Abriu a porta da sala onde Amy estava arrumando uns papis de Rosie, na 
escrivaninha.
- Tia Rosamund j acordou?
- Ainda no, e no v l acord-la. Ina hesitou.
- Eu. eu no sei o que fazer.
- Sobre o qu?
- O visconde Colt mandou-me um maravilhoso cesto de orqudeas e avisou 
que est esperando l embaixo. Acha que posso descer para lhe agradecer?
- Acho que ser uma grande indelicadeza da sua parte, se no o fizer - 
respondeu Amy.
- Mas, o que  que tia Rosamund vai dizer?
- Ela ficar muito satisfeita se souber que est com ele.
- Se voc tem certeza do que est dizendo, ento vou descer 
imediatamente!
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Ina saiu correndo para o seu quarto, com os olhos brilhando como 
estrelas.
Pegou o chapu, sem coloc-lo na cabea, para o caso de ele no querer 
sair do hotel, e, dando um ltimo olhar para o cesto de orqudeas, 
dirigiu-se para o corredor.
Ia comeando a descer as escadas, quando um homem saiu de um dos quartos.
- Eu a vi ontem  noite, mm Westcott, e estava com esperana de lhe falar 
no cassino, mas foi-se embora cedo disse ao chegar junto dela.
Ina olhou para ele. Era um homem de meia-idade, alto e moreno, imponente 
e autoritrio.
Tinha um modo de falar que a impediu sequer de pensar que no devia falar 
com ela sem ter sido previamente apresentado.
- J passava da meia-noite quando samos, e para mim era muito tarde!
O homem deu uma risada, antes de dizer:
- Para ns, aqui em Monte Carlo,  muito cedo, mas no parece curiosa em 
saber por que eu estava to ansioso para lhe falar.
Ina fitou-o, intrigada.
- Queria dizer-lhe que  muito bonita e que fui um grande admirador de 
sua tia, quando ela embelezava o palco do teatro de variedades.
- Tia Rosamund ficar encantada, quando souber que se lembra dela.
- E eu estou mais encantado ainda, por t-la conhecido. O atrevimento 
daquele homem a fazia se sentir desconfortvel. Enquanto falavam, iam 
descendo as escadas lentamente, e
Ina, apressada para encontrar o visconde, no sabia se seria uma 
grosseria descer mais depressa, na frente dele.
- Voc  encantadora, mas creio que devo apresentar-me. Sou o gro-duque 
Ivor, e espero ter o prazer de receb-la na minha vila. Gostaria de 
visitar o meu iate que est ancorado no porto?
- Obrigada, falarei a tia Rosamund do seu gentil convite.
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Chegaram ao ltimo degrau. O gro-duque parou na frente de Ina, dizendo:
- O convite  para voc, a moa mais linda e irresistvel que encontrei 
nos ltimos tempos. O que eu desejo, minha pequena rosa inglesa,  fazer 
amor com voc.
Sorriu, acrescentando:
- Ser muito excitante para ns dois.
Ina olhava para ele, aturdida, e quando ele estendeu a mo para toc-la, 
soltou um grito de horror, afastando-se a correr o mais que podia.
Estava apavorada, no s pelo que  gro-duque tinha dito, mas 
principalmente pelo seu ar ameaador.
Sentia, apesar de dizer a si mesma que era uma asneira, que mesmo que 
quisesse no iria conseguir fugir dele.
Chegou ofegante  entrada do hotel, vendo, aliviada, os cabelos negros e 
as costas largas do visconde, em frente a uma das janelas.
Estava de costas para ela, mas ela o teria reconhecido mesmo que 
estivesse entre mil outros homens.
Aproximou-se e parou, olhando para ele.
- Ento voc veio! - exclamou o visconde, como se estivesse receoso de 
que ela no aparecesse.
- O que aconteceu? O que a est preocupando? - perguntou, ao reparar na 
agitao de Ina.
- Um homem veio conversando comigo nas escadas. Disse que era o gro-
duque Ivor.
O visconde franziu a testa, apressando-se a dizer:
- Se no quer encontrar-se novamente com ele, vamos para o terrao, onde 
no seremos incomodados.
Ina estava to apavorada que teria aceitado qualquer sugesto que o 
visconde fizesse, sem discutir.
Continuando a segurar o chapu na mo, deixou que ele a guiasse pela 
sada do hotel.
Atravessaram a rua e foram para um terrao que ficava na parte de trs do 
cassino.
Nas vrias mesas, as pessoas podiam tomar um aperitivo e desfrutar a 
vista para o mar.
Como era ainda muito cedo, estava praticamente vazio.
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O visconde sentou-se com Ina num banco de madeira, de onde tinham uma 
vista magnfica para o porto, o palcio e o mar.
Virou-se para ela, que, com o sol batendo nos cabelos, os olhos azuis com 
uma expresso to preocupada que os tornava mais profundos que o azul do 
cu, ou do mar, estava linda e fora do comum.
- Comigo, voc est em segurana, mas no se envolva com o gro-duque, 
entende?
- Ele me assustou! - murmurou baixinho.
- O que foi que ele lhe disse? - perguntou o visconde rispidamente.
Ina enrubesceu, afastando o olhar com timidez, antes de responder:
- Ele disse. que queria fazer amor comigo. Um cavalheiro no deveria 
falar assim comigo, no acha?
O visconde encarou-a, pensando que ela estava fingindo e que semelhante 
comentrio no poderia t-la realmente alarmado.
Mas, por melhor atriz que fosse, era impossvel representar tanta 
surpresa, tanta agitao e tamanho choque.
Nem tremer, como ela estava tremendo, sem ele sequer a ter tocado.
- Voc  muito jovem - comentou, como se estivesse falando sozinho.
- E, principalmente, no estou habituada a lidar com esse tipo de pessoas 
- acrescentou Ina.
- No ficou impressionada pelo fato de ele ser um groduque?
- Ele era bastante velho, e disse que era admirador de tia Rosamund,
quando ela era atriz. Mas a maneira como falou comigo no era de quem
estivesse recordando o passado.
Olhou para o visconde, achando que ele a estava criticando ou 
interpretando mal, e, com um soluo na voz, justificou-se:
- Eu,  eu sei que est achando que sou louca, por no saber me
comportar... Mas nunca esperei que os homens pudessem falar assim comigo.
- Futuramente, voc ter que ser protegida desse tipo de
79
coisas. Quero falar com voc sobre isso, mas agora, que est to nervosa,
no  o momento oportuno. Sorriu e estendeu-lhe a mo.
- Esquea o gro-duque, lembre-se apenas de que estamos juntos e
sozinhos, como eu queria.
Subitamente, Ina sentiu-se protegida e a salvo, mas com o corao aos 
pulos no peito, porque ele lhe tinha dado a mo.
- Voc tem razo. devo esquecer aquele homem. Talvez estivesse bbado, 
para me falar daquele jeito, mas parece-me cedo demais para algum beber 
outra coisa, a no ser caf.
O visconde deu uma risada, sem largar a mo de Ina, que continuou:
- Antes de continuar conversando, tenho que lhe agradecer o maravilhoso 
cesto de orqudeas. Foi uma indelicadeza da minha parte no t-lo feito 
imediatamente.
- Gostou?
- Nunca tinha visto orqudeas, s em quadros, e so muito mais bonitas do
que eu imaginava.
- So as suas flores favoritas? - perguntou o visconde com um certo 
cinismo na voz.
Ina no respondeu, e ele acrescentou:
- Estou certo de que devem ser.
- Pode parecer uma ingratido da minha parte. Voc foi to gentil e 
generoso comigo. Mas, apesar de as orqudeas serem to bonitas, na minha 
opinio, os lrios so os mais belos, e so as flores de Deus.
O visconde estudou-a por alguns momentos, depois disse:
- Se as orqudeas no so exatamente o que voc gostaria de ganhar, 
sugiro que vamos s compras e eu lhe oferecerei o que quiser, o que voc 
escolher.
- No, de maneira nenhuma - recusou imediatamente. No pense que no 
gostei do seu presente, mas perguntou quais eram as minhas flores 
prediletas... e eu no pude mentir.
- No, claro que no e  por isso que queria lhe dar uma pulseira, ou, se 
preferir, um broche. Poderamos encontrar pedras da cor dos seus olhos.
Ina fitou-o, sinceramente admirada, antes de dizer:
- Apesar de ser muito gentil da sua parte, eu nunca poderia
80
aceitar. Talvez tivesse sido melhor ter dito uma mentira sobre as 
orqudeas.
Contudo, gostaria de lhe oferecer uma jia, Ina. Ontem  noite, reparei
que no estava usando nenhum colar.
Tia Rosamund deve achar que ainda sou muito jovem
para usar as dela emprestadas, ou talvez pense que so preciosas demais, 
e que eu possa perd-las.
Parou e sorriu para ele.
A verdade  que j me deu tantos vestidos bonitos que
eu no quero mais nada.
Trata-se apenas do que eu gostaria de lhe oferecer insistiu o visconde.
- Por favor. Repito que agradeo muito, mas no posso aceitar.
- Por que no?
- Porque sei que no seria correto... e tambm. Interrompeu-se, fazendo 
um gesto de desnimo com as mos.
- No entendo por que quer me oferecer presentes, se acabamos de nos 
conhecer - prosseguiu, confusa.
- A resposta  muito simples. Acho que voc  encantadora e adorvel, e 
no quero perd-la.
Ina olhou para ele, perplexa, e dando uma risada constrangida, perguntou:
- Se eu no lhe perteno, como  que pode me perder?
O visconde ia responder, mas, sem saber se Ina estava ou no 
desempenhando uma farsa, teve medo de assust-la com a sua franqueza.
Era difcil acreditar que algum que se dizia ser sobrinha de Rosie Rill 
pudesse ser to inocente e ingnua.
Por outro lado, Ina parecia ter as reaes normais de uma garota vinda do 
interior apenas h duas semanas, como lhe tinha contado.
Ento, voltando a pensar que o medo do gro-duque e a recusa em aceitar 
um presente dele fossem parte de uma comdia previamente ensaiada, mudou 
de assunto;
- Se no quer vir s compras comigo, o que faria a delcia da maioria das
mulheres de Monte Carlo, ento o que gostaria de fazer?
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- Eu sei exatamente o que quero fazer, mas tenho receio de aborrec-lo - 
retrucou ela.
- Raramente me dou ao trabalho de ficar aborrecido, e junto de voc, 
seria impossvel isso acontecer.
Ina deu uma risada doce, antes de dizer:
- Como  que pode fazer semelhante afirmao, se me conhece h to pouco 
tempo?
- Eu no s avalio rapidamente uma pessoa, como desde o primeiro momento 
em que a vi, percebi que voc  completamente diferente de todas as 
pessoas que conheci antes.
Fez uma pausa e continuou:
- E depois, quando toquei na sua mo, ao pegar as fichas que sua tia 
tinha deixado cair no cho, senti que estvamos ligados um ao outro, de 
uma maneira que me  impossvel definir.
Ina teve um sobressalto e olhou para ele com os olhos muito abertos.
- Voc tambm sentiu?
- Sabia que tnhamos sentido os dois. E agora, Ina, o que faremos?
-  estranho - murmurou ela, como se estivesse seguindo a sua prpria 
linha de pensamento. - Talvez nos tivssemos conhecido em outras vidas, 
como acreditam os budistas.
- No acredito que seu pai, um proco ingls, lhe tenha falado sobre o 
ciclo do renascimento!
- Mas ele falou! Queria que eu entendesse que todas as religies existem 
para ajudar a raa humana a crescer espiritualmente, atravs da f.
Aps ter feito uma pequena pausa, Ina acrescentou:
- Perguntou-me o que eu queria fazer. Desde que fiquei sabendo que vinha 
para Monte Carlo, desejei ter a oportunidade de visitar a capela de Santa 
Devota.
Admirado, o visconde perguntou:
-  a capela de uma santa de quem nunca ouvi falar.
- Mas j deve ter ouvido falar de Santa Devota. Ela  a santa padroeira 
do rochedo.
- Quem lhe contou?
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Fiquei sabendo h muito tempo, quando li nos jornais
que os bispos condenavam o jogo em Monte Carlo.
Sorriu e continuou:
- Foi quando papai contou a histria da santa que veio parar nesta costa 
no ano 300.
- H tantos anos que venho para Monte Carlo e nunca ouvi essa histria -
comentou o visconde
- Santa Devota vivia na Crsega, e foi assassinada depois de se converter
ao cristianismo. O padre que a converteu planejou levar o corpo dela para
a frica, mas o vento fez com que o navio se desviasse da rota.
Ina fez uma pausa, com um olhar distante.
- Num sonho, ele viu uma pomba branca voar do peito da moa morta e 
pousar num estreito desfiladeiro - prosseguiu, com voz doce e olhando 
para o mar.
Parecia assistir  cena, atravs dos tempos.
- Quando o padre acordou, viu que o navio tinha aportado na praia de 
Mnaco, e no alto do desfiladeiro havia uma pomba branca!
- Ento  por isso que quer visitar a capela de Santa Devota. Ser um 
prazer lev-la at l - disse o visconde, quando ela terminou de contar a 
histria.
- Leva mesmo? - perguntou Ina, com um sorriso que lhe iluminou o rosto. - 
Mas antes informe-se se  muito longe, por favor. No quero demorar 
muito. Tia Rosamund pode acordar e precisar de mim.
- Teremos tempo - afirmou o visconde.
Voltaram para a rua, onde havia carruagens abertas para alugar.
O visconde disse ao cocheiro para lev-los  capela, e o homem no ficou 
muito satisfeito com a ordem recebida.
Quando comeavam a subir a colina, a carruagem virou para a direita, ao 
contrrio do que ele esperava.
No meio de um alto desfiladeiro, viram a capela que Ina queria visitar.
O visconde a ajudou a descer, o que ela retribuiu com um sorriso, antes 
de comear a subir a escada que dava para a capela.
83
Empurrou a porta, coberta com uma cortina de l.
Era uma construo pequena, fria e escura, iluminada por velas.
com exceo de duas velhas, de xale preto na cabea, no havia mais 
ningum naquela capela, onde se respirava uma atmosfera de f secular.
Sem se lembrar mais do visconde, Ina ajoelhou-se nas ltimas filas de 
bancos.
Ele ficou olhando para ela, que rezava de mos postas e olhos fechados.
H muito tempo no via uma mulher rezando, muito menos uma to jovem, to 
bonita.
Certamente no estava representando.
Ina abriu os olhos, levantando o olhar para o altar, com uma f profunda 
que lhe vinha do corao, ou melhor, da alma.
Aquela expresso contrita no podia ser de uma atriz, por mais brilhante 
e premiada que fosse.
Ina rezou durante uns dois minutos e levantou-se, dirigindo-se para a 
porta da capela, fazendo uma genuflexo antes de sair.
O visconde abriu a porta para ela passar, e s depois de t-la ajudado a 
entrar na carruagem  que ela falou:
- Obrigada. muito obrigada por ter-me trazido aqui! Era exatamente como 
eu pensava.
Fez uma pausa e prosseguiu, sonhadora:
- Senti-me transportada atravs dos tempos, com a mesma excitao que o 
padre deve ter sentido ao ver a pomba branca e percebendo que era aqui 
que devia enterrar o corpo da santa.
O visconde no conseguiu deixar de pensar que todas as mulheres que tinha 
conhecido no passado s falavam com tanta emoo quando o tema era ele, 
no uma santa obscura que morrera h muitas centenas de anos.
- E agora, o que gostaria de fazer?
- Creio que  melhor voltar para junto de tia Rosamund.
- Est assim com tanta pressa de me deixar?
- No  isso. Adoro conversar com voc. Tem sido muito gentil, mas no 
quero fazer nada errado.
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Sua tia no vai achar errado voc estar comigo, e a manh mal comeou,
Ina.
Estou acordada h muito tempo.
- Eu tambm, e como queria v-la, no fui montar a cavalo, como de 
costume. Fui at Monte Carlo procurar as orqudeas que esperava que voc 
apreciasse.
Ina respirou fundo e olhou para ele com olhos muito expressivos.
- Temos muito o que conversar, Ina - disse o visconde suavemente, quando 
a carruagem parou  porta do Hotel de Paris.
O visconde desceu, pagou e deu o brao a Ina, dirigindo-se para o 
terrao, onde havia muito mais gente do que antes, apesar de o lugar em 
que estavam continuar desocupado.
Sentaram-se lado a lado e ela olhou para ele.
- Voc sabe que quero estar com voc, por isso sugiro que volte ao hotel 
e pergunte a sua tia se posso lev-la para almoar fora.
- Subiremos at La Turbie, onde voc poder ver as runas romanas e uma 
vista muito bonita da costa inteira - prosseguiu ele, sorrindo.
- Eu adoraria -respondeu Ina, com toda a sinceridade.
- Ento,  o que faremos. vou lev-la at a sua sute, para no ser 
incomodada por gro-duques nem por mais ningum at estar novamente 
comigo.
- Faa isso, por favor - implorou Ina, pronta para se levantar.
Mas o visconde ficou onde estava.
- Voc  to linda, to inacreditavelmente bonita, que no creio que seja 
real - afirmou, pegando-lhe na mo. - Se quer estar comigo tanto quanto 
eu quero estar com voc, seremos muito felizes.
Sentiu os dedos dela estremecerem, antes de dizer:
- Mas claro que quero estar com voc. Foi maravilhoso, levando-me  
capela. Gostei mais de ir com voc do que com qualquer outra pessoa.
- Por que diz isso?
Ina hesitou um momento, antes de responder:
85
- Posso estar enganada, mas senti que voc tem uma sensibilidade que os 
outros no tm.
Interrompeu-se de novo e continuou, quase num sussurro:
- No creio que tia Rosamund seja muito religiosa. Ela pareceu ficar 
surpresa quando fui  igreja, no domingo passado. Mandou Amy comigo, mas 
ela mesma no foi.
- Ento acha que ela no se interessaria em ir com voc  capela da Santa 
Devota?
Um pouco embaraada, Ina respondeu:
- Penso que ela se riria de mim por eu querer ir at l.
- No entanto, achou que eu entendi.
- Voc entendeu e me levou.
Olhava para ele com uma tal expresso de confiana no olhar que deixou o 
visconde perturbado.
Quero cuidar de voc, proteg-la de tudo o que possa
perturb-la, mas falaremos sobre isso depois do almoo - disse ele com 
esforo.
- Espero que me deixem aceitar o seu convite.
- Ento vamos saber.
Voltaram para o hotel, e quando chegaram  recepo, cheia de gente, uma 
senhora elegantemente vestida e usando um chapu de plumas soltou um 
grito de alegria.
- Victor!  voc! Pensei que o encontraria aqui! O visconde beijou-lhe a 
mo, antes de dizer:
-  um prazer encontr-la novamente, Belle. Voc torna sempre Monte
Carlo 
mais atraente e mais fascinante.
Ina observou a amiga do visconde. Nunca tinha imaginado que uma mulher 
pudesse ser to bonita e to atraente.
Era um modelo de elegncia, com um chapu de plumas e um vestido cujas 
mangas terminavam nos cotovelos, com fileiras e fileiras de renda preta 
at ao cho.
Um colar de prolas perfeitas, com cinco voltas, enfeitavalhe o pescoo.
Achou estranho que o visconde no fizesse as devidas apresentaes, e, 
quando se afastaram, depois de o visconde ter beijado novamente a mo da 
senhora, Ina perguntou:
- Quem era aquela senhora encantadora?
-  Belle Otero.
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Ela  muito bonita!
E muito, muito cara - comentou o visconde, sem pensar -, como muitos 
cavalheiros j descobriram  prpria custa.
Cara? Ela  atriz?
com um trejeito de cinismo nos lbios, o visconde pensou que a sobrinha 
de Rosie Rill no podia ser ingnua a ponto de no entender o que ele 
tinha insinuado.
- Sim, ela  danarina.
- Deve fazer muito sucesso, para possuir prolas to magnficas.
- Acha que as ganhou danando? Poderia fazer o mesmo? Ina riu.
- Agora, est me arreliando outra vez! No creio que algum pagasse um 
tosto para me ver danar, e, se eu tivesse muito dinheiro, preferia 
gast-lo em muitas outras coisas, antes de comprar prolas.
- Que tipo de coisas? - perguntou o visconde, comeando a subir as 
escadas.
Finalmente, entravam no assunto que interessava. Ina ficou pensativa por 
alguns momentos, antes de responder:
- Na vila onde eu morava, h pessoas muito pobres que gostaria de ajudar. 
Meus pais faziam o que podiam por eles, mas agora esto desprotegidos.
- E o que compraria para voc? - persistiu o visconde.
- Compraria um cachorro que eu amaria e que me serviria de companhia, 
para eu no me sentir to s, sem meus pais. E, se fosse suficientemente 
rica, compraria um cavalo.
No era o que o visconde esperava ouvir.
- Est dizendo que gostaria de montar?
- Costumava andar a cavalo todos os dias, quando estava em casa, mas 
aqui, em Monte Carlo,  tudo diferente, e mesmo que eu tivesse um cavalo, 
no poderia pedir a tia Rosamund um traje de montar, depois de tudo o que 
ela tem feito por mim!
Deu uma risada e acrescentou:
-  como aquela rima idiota:
"Pela vontade de uma unha, perdeu-se o sapato, Pela vontade de um sapato, 
perdeu-se o cavalo,
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Pela vontade de um cavalo, perdeu-se a batalha."
- Lembra-se desse verso, de quando era menino?
Mais uma vez, o visconde no conseguira que ela dissesse o que ele 
queria. Estavam chegando  porta da sute da tia, e no poderia continuar 
a conversa.
A chave estava na porta.
Ina abriu-a e perguntou:
- Ser que devo convid-lo a entrar? Assim, minha tia pode falar com 
voc, se quiser.
- Aqui  a sua sala?
Ina concordou com a cabea.
- Ento, pode convidar-me a entrar, sem nenhum problema - disse ele, 
gentilmente.
- Entre, por favor, e desculpe a minha indeciso, mas no sabia se era 
correto. - Sente-se um instante, que vou saber se tia Rosamund j 
acordou.
Atravessou a sala e abriu a porta do quarto da tia, com todo o cuidado.
Como as cortinas estavam abertas, entrou, fechando a porta atrs de si.
Sozinho na sala, o visconde foi at  janela, pensando que, apesar de 
estar decidido a possuir Ina, as coisas no pareciam to fceis como 
julgara a princpio.
A dificuldade no devia ser Rosie Rill, mas a prpria Ina.
Tendo terminado o caf, Rosie estava sentada na cama, usando um 
casaquinho muito elegante e lendo os jornais.
Satisfeita, via que trs dos mais importantes de Monte Carlo tinham 
dedicado um bom espao para noticiar a sua chegada ao Hotel de Paris, 
acompanhada por sua sobrinha - a neta do conde de Ormond e Staverley.
Acordou logo depois que Ina desceu, e Amy, assim que abriu as cortinas do 
quarto e levou a bandeja do caf, disse:
- Quer ver as orqudeas que o visconde mandou para miss Ina esta manh?
- Orqudeas? Claro que quero.
Amy trouxe o cesto das flores com o bilhete.
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Sem dar muita ateno s orqudeas, leu o que estava escrito, com um 
sorriso de satisfao nos lbios.
- Exatamente como eu queria! - exclamou.
- Sabia que ia gostar! - comentou Amy, com azedume.
Rosie no se deu ao trabalho de responder e esperou que Amy sasse do 
quarto para abrir uma caixa de couro que tinha junto da cama.
Nessa caixa havia muitas cartas, amarradas por uma fita.
Tirou uma do mao onde havia pelo menos trinta, e comparou a letra com o 
bilhete que Ina tinha recebido.
Havia uma pequena diferena, mas que s seria notada se algum observasse 
cuidadosamente. E, o que era mais importante, as cartas eram assinadas da 
mesma maneira que o bilhete de Ina, com um C.
Automaticamente, Rosie leu as palavras que tinha recebido do marqus, h 
quase trinta anos.
"Minha querida,
Devo chegar tarde esta noite, mas no se preocupe. Quando for, voc j 
deve estar dormindo.
No tenho palavras para dizer o quanto estava adorvel na ltima noite, 
mas tentarei encontr-las hoje quando chegar, por mais tarde que seja.
C."
O olhar de Rosie se endureceu, ao terminar de ler. Voltou a colocar o 
papel no mao, amarrando-o junto com o resto das cartas.
Recostou-se novamente nos travesseiros, olhando para o bilhete que Ina 
tinha recebido com um sorriso triunfal nos lbios.
89

CAPITULO VI

Quando Ina entrou no quarto de Rosie, esta estava fazendo a maquilagem na
frente do espelho, o que constitua uma operao delicada, desde que
voltara a ser lady Rosamund.
Agora s podia usar uma ligeira camada de p-de-arroz no nariz, um toque 
de batom claro e um pouco de brilho nos clios, em vez da mscara que 
costumava usar.
Voltou a cabea, sorrindo para Ina, que se aproximou, linda, com um dos 
vestidos que ela lhe tinha comprado em Bond Street.
- Tia Rosamund... Gostaria de lhe pedir uma coisa disse, acanhada.
- O que , querida?
- O visconde convidou-me para almoar e se ofereceu para me levar at La 
Turbie, para eu poder ver as colunas romanas e a vista da costa.
Fez uma pausa e acrescentou, rapidamente:
- Mas s se a senhora no se sentir muito sozinha sem mim... Caso 
contrrio, ficarei aqui.
Rosie olhou-se no espelho, sorrindo.
-  muito gentil, querida, mas claro que deve ir com o visconde. Parece 
que ele sugeriu um programa delicioso.
- A senhora ficar bem, sozinha? - insistiu Ina. Rosie lembrou-se dos 
longos anos que passara sozinha, no
seu apartamento de Londres. O importante era que o seu plano funcionava 
s mil maravilhas.
- Na verdade, estou muito cansada e com um pouco de dor de cabea. Assim, 
poderei comer aqui na sala e descansar depois.
- Ento, posso ir? - perguntou Ina, toda excitada.
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Sim, querida, e diga ao visconde para cuidar bem de voc.  preciosa para 
mim. Ina hesitou.
- Ele est ali na sala. Se a senhora quiser falar com ele... Rosie ia 
concordar quando se lembrou de que ainda no
tinha terminado de se vestir.
Estava usando um nglig, e se recebesse o visconde sem estar 
adequadamente vestida, Ina ficaria chocada.
- Voc mesma lhe dar a boa notcia - disse, suavemente.
- Ele deve ser muito atencioso, para ter subido com voc.
Ina ficou atrapalhada, depois disse:
- Eu. eu estava com medo de um homem que encontrei quando fui para baixo.
- Um homem? Quem era? - perguntou Rosie, severa.
- Ele disse que era o gro-duque Ivor, e saiu de um apartamento do 
segundo andar.
- Onde estava visitando Belle Otero! - balbuciou Rosie. Ina lembrou-se de 
que Belle Otero era a linda senhora que
tinha falado com o visconde.
- O que foi que o gro-duque lhe disse?
- Que queria convidar-me para ficar na sua vila... e... visitar o seu 
iate.
Depois, concluiu, em voz baixa:
- Depois, disse coisas esquisitas, que me assustaram, e fugi. Os lbios 
de Rosie se estreitaram.
- Voc no tem nada a ver com o gro-duque! Ele tem a reputao de 
perseguir todos os rostinhos bonitos que encontra, enquanto a pobre 
esposa fica na Rssia, com os filhos.
- Quer dizer que aquele gro-duque  casado?
- Claro que .
Notou que Ina ficou ainda mais chocada, ao saber que fora um homem casado 
que tivera a petulncia de lhe fazer propostas.
- Esquea-o! - ordenou Rosie. - Concentre-se no visconde.  um jovem 
encantador e de famlia muito distinta.
- Ele  muito gentil comigo...
Ina inclinou-se para dar um beijo no rosto da tia.
- Obrigada, tia Rosamund, por me proporcionar dias to
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maravilhosos. Quando voltar, conto como foi a minha visita a La Turbie.
- Estarei esperando, curiosa! - afirmou Rosie, sorrindo.
Ansiosa para estar com o visconde, Ina saiu praticamente correndo do 
quarto, e Rosie ficou olhando para o espelho, absorta.
Era incrvel que tudo estivesse saindo como planejara antes de sair de 
Londres, certa de que o visconde, como Amy tinha dito, seria "galho do 
mesmo tronco".
Ficaria fascinado por uma moa to jovem e fresca como Ina, tal como o 
pai tinha ficado com Rosie.
Mas agora, era ela quem segurava as rdeas.
Assim que o visconde descartasse Ina, o que certamente faria, da mesma 
maneira como ela tinha sido descartada, iria process-lo, por quebra de 
promessa.
Os jornais haveriam de dar bastante publicidade ao assunto.
O visconde j comeava a escrever bilhetes a Ina, e haveria de mandar 
muitos mais.
Alm disso, tencionava apresentar as cartas do pai, como sendo de autoria 
do filho. Seria muito difcil negar a acusao.
O marqus teria que se apresentar como testemunha, declarando que tinha 
sido ele quem as escrevera.
Cheia de prazer, Rosie imaginava os cabealhos dos jornais, sabendo muito 
bem como eles iriam enfatizar a importncia do marqus na alta sociedade.
O mesmo aconteceria com seu pai, que era governador de Hertfordshire.
O escndalo ecoaria por toda a Inglaterra, fazendo com que seu pai e o 
marqus odiassem cada palavra que fosse escrita sobre eles.
Publicariam fotografias da linda Ina e de Rosie, no auge da fama, do 
visconde e do pai, dois homens muito atraentes. S quando tivesse atirado 
a famlia deles e a sua na lama  que ficaria satisfeita.
A indenizao que pagariam a Ina seria enorme, e, mais importante ainda, 
como a garota seria a parte injuriada, as mulheres de todas as classes 
sociais leriam os jornais com profunda simpatia.
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Lamentariam que uma moa to linda e to jovem casse no conto de um 
experiente dom-juan.
Rosie ficou no quarto at Amy dizer que o visconde e Ina tinham sado da 
sala. Depois, vestiu um dos seus mais distintos e sbrios vestidos, 
colocou um chapu com plumas e desceu.
Na entrada do hotel, o gro-duque Ivor, que estava sentado com vrios 
amigos, levantou-se e veio ter com ela.
- Bom-dia, Rosie Rill! Quero falar com voc.
Rosie fez uma cortesia seca e desagradvel, antes de dizer;
- Meu nome  lady Rosamund Ormond, Alteza.
- Estou ciente, mas, como sabe, fui seu admirador por muitos anos, e 
encontramo-nos em vrias festas.
com um sorriso sarcstico, prosseguiu:
- Voc era a mais linda das estrelas que brilhavam no teatro de 
variedades.
- O senhor me lisonjeia - disse Rosie, com toda a frieza.
- Venha, vamos sentar-nos um pouco. Queria dizer-lhe uma coisa.
Dirigiram-se para duas poltronas vazias. Rosie sentou-se, pensando que, 
apesar da idade, o gro-duque tinha envelhecido com garbo, e estava um 
homem muito distinto.
Se no fosse as circunstncias, talvez pudesse considerar o que ele tinha 
para lhe dizer.
Sabia muito bem que os gro-duques russos nadavam em dinheiro e eram 
prdigos em gast-lo  vontade.
Contudo, o plano que tinha traado para Ina no podia sofrer alteraes.
Assim, sentou-se muito direita, com uma expresso dura no olhar, enquanto 
o gro-duque dizia, suplicante:
- Estou impressionado, absolutamente impressionado com sua sobrinha, 
Rosie. Depois de voc,  a coisinha mais encantadora que j vi.
Rosie no respondeu, e ele continuou:
- Estou disposto a cuidar dela para voc e dar-lhe tudo quanto uma mulher 
possa desejar.
Parou para ver a reao de Rosie.
- Jias, peles, cavalos e,  claro, uma casa em Paris, que lhe 
pertencer, com a escritura depositada no seu banco.
93
Quando terminou, Rosie olhava para as mos, como se estivesse 
considerando a oferta que ele acabava de fazer. Ento, levantou-se, 
lentamente.
- Lamento desapontar Vossa Alteza real, mas no pode oferecer a Ina algo 
que, para ela,  muito mais precioso e importante.
- O que ?
- Uma aliana de casamento.
Viu o ar espantado do gro-duque, antes de fazer uma reverncia 
superficial e afastar-se.
Dirigiu-se para a porta principal do hotel, enquanto ele ficava pasmado, 
vendo-a sair, absolutamente confuso.
Rosie atravessou a rua e foi para o terrao, onde Ina tinha estado com o 
visconde.
Mulheres elegantes e homens bem-vestidos, tomando aperitivos, ocupavam a 
maioria das mesas.
Rosie foi sentar-se numa que estava vazia, no fim do terrao.
Um garom aproximou-se rapidamente, para perguntar o que desejava tomar, 
mas, antes que ela pudesse pedir, uma voz na mesa do lado disse:
- Posso ter o privilgio e a honra de lhe oferecer uma taa de champanhe?
Rosie virou a cabea e viu, bem atrs de si, um homem sentado numa 
cadeira de rodas.
O cabelo comeava a embranquecer, mas tinha bom aspecto. Obviamente, era 
um cavalheiro, e ingls.
- J nos conhecemos? - perguntou Rosie.
- Conheo-a h muitos anos, e gostaria de lhe falar sobre isso.
Interessada, e tambm para no ficar sozinha, Rosie levantou-se, 
sentando-se na mesa dele.
Depois de encomendar uma garrafa de champanhe, ele disse a Rosie:
- Nem quero acreditar na minha sorte! Toda a minha vida sonhei em 
conversar com voc, dizer-lhe o quanto significava para mim, e agora, 
como num milagre, voc est aqui!
- Torna as coisas muito dramticas! - disse Rosie, rindo.
- Para mim, so - respondeu ele, tranquilamente.
94
Vendo Rosie passar os olhos por suas pernas, cobertas com uma manta leve, 
explicou:
Quebrei a perna caando, e est levando tempo demais
para solidificar. Ento, os mdicos acharam que eu estava enfraquecido e 
aconselharam-me a vir para c para me recuperar.
Fez uma pausa, acrescentando:
- Mas nada me traria uma cura mais rpida do que encontr-la!
Instintivamente, Rosie no conseguiu deixar de reviver o passado, e, 
quase flertando com ele, disse:
- Obrigada! Mas conte-me por que diz que me conhece h muito tempo.
-  muito difcil explicar-lhe o significado que teve em minha vida, mas 
antes deixe que me apresente. Sou sir Stephen Hardcastle. Herdei o 
baronato de meu pai, h trs anos atrs.
Rosie sorriu, sem interromp-lo.
- Veio inesperadamente, em virtude de eu ter perdido os meu dois irmos 
mais velhos. Um foi morto no norte da ndia e outro, lutando com o 
general Gordon, em Cartum.
- Nem quero pensar nesse cerco. O general Gordon foi um verdadeiro heri.
- Quando a vi pela primeira vez - continuou Stephen Hardcastle, como se 
ela no tivesse falado -, era um jovem oficial subalterno, com vinte e 
trs anos.
Sorriu para ela.
- Como todos os jovens, fui atrado pelo teatro de variedades, que 
significava luxo, risos, alegria e,  claro, as garotas mais adorveis do 
mundo.
Olhou para Rosie, que sentiu que ele via o que ela tinha sido, e no o 
que era agora.
- A mais bela de todas era voc! Fez uma pausa.
- Creio que fiquei apaixonado no momento em que entrou no palco -
continuou, suspirando. - Quando voltei para a ndia, no consegui
encontrar mulher nenhuma que tivesse a sua doura, ou o inexplicvel 
encanto do seu rosto.
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Falava com tanta sinceridade que Rosie sentia-se hipnotizada.
- E voltou a ver-me?
- Sempre que tinha licena, voltava para a Inglaterra com uma ideia 
apenas: ver voc!
- E por que nunca se apresentou?
- Como poderia? Eu tinha muito pouco dinheiro. Nem ao menos lhe poderia 
enviar flores, quanto mais as flores que os outros homens lhe ofereciam.
Voltou a suspirar, antes de prosseguir:
- No, limitava-me a ficar nas frisas, sentindo o corao disparar a cada 
vez que voc aparecia. Cada vez que partia, deixando Londres e voc, 
sabia que a amava mais do que antes.
- Custa a acreditar! Mas  casado, no?
- Nunca descobri ningum que fosse, pelo menos, igual a voc.
- S espero que no me culpe por ter ficado solteiro!
- Pode no acreditar, mas tudo o que acabei de lhe contar  a pura 
verdade. Eu a amei, Rosie. Deitava-me todas as noites sonhando com voc, 
e tudo o que fiz foi com a pretenso de que se orgulhasse de mim.
Rosie continuava com dificuldade de acreditar no que estava ouvindo. 
Contudo, era impossvel duvidar da sinceridade do homem que estava 
sentado a seu lado.
Sua voz vibrava de amor, e ela podia ver a honestidade em seu olhar.
- Todos os atos que pratiquei e que mereceram louvor dos meus superiores 
foram por voc.
Fez uma pausa e continuou;
- E quando, finalmente, herdei minha casa ancestral, redecorei alguns 
aposentos, pensando que seriam um cenrio perfeito para voc.
Olhou para ela e, mais do que as palavras, a expresso que tinha 
estampada no rosto demonstravam que falava com o corao.
- Agora que est a meu lado, constato que  exatamente como pensei que 
seria, quando ficasse mais velha!
Um sorriso iluminou seus olhos.
96
De uma bela jovem de tirar o flego, olhando o mundo
com olhos que brilhavam como estrelas, voc se transformou numa senhora 
muito bonita e distinta.
Mas continuou a no tentar me conhecer.
- Talvez tivesse medo de ficar desiludido - respondeu Stephen Hardcastle. 
- Adorei-a por tanto tempo, que a imagem da ltima vez que a vi ficou 
gravada no meu corao.
Deu uma risada.
- No teria suportado v-la como tantas outras mulheres da sua idade, de 
cabelos pintados, rosto com excesso de maquilagem, em resumo, como uma 
ovelha vestida de cordeiro.
Desta vez, deu uma risada de puro contentamento, antes de dizer:
- Mas voc  perfeita, como eu sabia que seria, e, tenho dificuldade em
explicar como isso  importante para mim.
- No posso acreditar! - murmurou Rosie, desejando intimamente que tudo
aquilo fosse verdade.
Ficaram conversando e bebendo champanhe por mais uma hora, e quando 
Stephen Hardcastle soube que Rosie ia almoar sozinha, chamou o seu 
criado.
Foram andando at os jardins do Metrpole Hotel.
- Estou hospedado aqui, porque no Hotel de Paris h muitas escadas, e 
tambm porque gosto de comer ao ar livre.
- Eu tambm - concordou Rosie, sentindo o sol brilhar dentro do peito.
Depois do almoo, Stephen enumerou todos os espetculos em que a tinha 
visto no teatro.
Descreveu todo o seu sofrimento, quando, aps uma longa permanncia no 
estrangeiro, foi avidamente ao teatro, descobrindo que ela no fazia mais 
parte do elenco.
- No podia conceber um espetculo sem voc. Apesar de ser uma agonia 
perd-la, esperava do fundo do corao que estivesse casada e feliz, com
algum que cuidasse de voc.
- No havia ningum - disse Rosie, em voz baixa.
- Oh, minha querida, se eu pudesse imaginar! - exclamou, cobrindo as mos
de Rosie com a sua.
Ento, com dificuldade em pronunciar as palavras, perguntou: E hoje em 
dia, h algum importante na sua vida?
97
- H muito tempo que no h ningum - respondeu Rosie, com toda a 
sinceridade, sorrindo. - S vim para c por causa da minha sobrinha, a 
quem, at quinze dias atrs, nunca tinha visto, e que veio ter comigo 
quando os pais morreram, deixando-a sozinha.
Rosie pensou nos anos que passara sentada, sem ver ningum, vivendo 
apenas das suas recordaes.
No existe ningum - repetiu -, e abandonei o palco quando fiz quarenta e 
cinco anos, porque, para ser franca, nunca fui uma verdadeira atriz.
Stephen respirou fundo, enchendo-se de coragem para fazer uma pergunta 
que devia ser importante:
- Sente falta da sua vida anterior?
- Tenho formulado essa pergunta a mim mesma muitas vezes, e creio que o 
que me faz verdadeiramente falta na vida foi tudo o que abandonei quando 
fui para o palco.
- Fale-me sobre isso - pediu ele com tanto interesse, que Rosie deu por 
si contando-lhe a sua infncia, falando sobre a sua famlia e a fria do 
pai quando ela fugira com Viviari Vaughan.
S quando estava contando como terminou a sua vida com Vivian  que se 
deu conta de que Stephen no poderia saber o que acontecera depois que
ele partira.
No queria que soubesse do marqus, e muito menos de todos os homens que 
o haviam sucedido.
Rezava tanto para que um homem como Stephen se casasse com ela, que agora 
no tinha coragem de estragar a imagem que ele fazia a seu respeito.
Conhecendo a ligeireza com que um homem avaliava a mulher que podia 
comprar, da mesma forma sabia que no podia destruir o relicrio em que 
Stephen a tinha colocado.
- Ento voc tambm sofreu, Rosie - disse gentilmente, quando ela acabou 
de falar. - H alguma possibilidade de eu remediar tanto sofrimento? - 
perguntou, estreitando os dedos de Rosie, que olhou para ele, intrigada, 
afastando logo o olhar.
- Tenho muito orgulho da minha casa, em Devonshire, com seus dois mil 
acres de terra cultivada, e da minha posio no
98
condado. Por outro lado, sinto-me muito sozinho, e como voc disse que 
gostava do campo...
Olhou para ela, interrogativamente.
Rosie respirou fundo. Tudo parecia um sonho, menos a mo dele 
pressionando a sua, dando-lhe j uma sensao de conforto e proteo.
E, numa voz que no parecia a sua, disse:
- Voc deve casar e ter um filho... para herdar o ttulo.
- Isso no  importante, porque tenho um sobrinho que se distinguiu tanto 
no meu antigo regimento que logo chegar a general e receber algum 
ttulo.
Fez uma pausa e continuou, com orgulho:
- Tenho outro sobrinho que est na poltica, e pode mesmo vir a ser par 
do reino.
Seus olhos fitavam o perfil de Rosie, ao dizer suavemente:
- Assim, s resto eu, Rosie, se voc me quiser.
Ela virou-se para ele e, naquele momento, era apenas uma jovem, tmida e 
feliz porque um homem a amava.
- Como pode dizer tudo isso, se s agora nos encontramos?
- perguntou, com lgrimas na voz.
Stephen riu, cheio de ternura.
- Tenho tentado explicar que a conheo h muitos anos, e nada do que 
possa dizer ou fazer a impedir de me pertencer.
Parou para lhe dar um sorriso e continuou:
- Voc  minha, Rosie, na minha cabea, no meu corao e na minha alma. A 
nica coisa que tem que decidir  se vai comigo ou se continuarei a 
sonhar com voc.
- Voc me quer de verdade?
Parecia uma garota que precisava de conforto.
- Passarei o resto da minha vida dando-lhe a certeza de quanto eu a 
quero.
Havia um pequeno restaurante em La Turbie onde a comida era deliciosa.
A proprietria cuidava dos fregueses com toda a ateno, enquanto o 
marido cozinhava.
Ina olhou para o visconde, do outro lado da mesa.
Estavam sentados ao lado da janela.
99
Como tinham vindo no novo carro do visconde, Ina tinha tirado o chapu e 
usava uma tira de chifon que lhe prendia o cabelo.
Tinha adorado o passeio, visto ser a primeira vez que andava de carro, um 
Panhard de corrida, que no ano anterior fora equipado com um novo tipo de 
volante e pneus de ar comprimido.
Pararam no estacionamento do restaurante, e Ina pegou no banco de trs o 
seu pequenino chapu, que parecia uma aurola no alto da sua cabea, 
dando-lhe a aparncia de um anjo.
- Deixe-se ficar como est. No h ningum especialmente importante neste 
restaurante, mas a comida  tima, e poderemos conversar sem sermos 
interrompidos.
Para Ina, s ele poderia interromp-la, visto que no conhecia ningum em 
Monte Carlo.
Depois, lembrando-se do gro-duque, estremeceu.
- Garanto que no encontrar ningum desse tipo aqui. J lhe disse que  
um lugar onde podemos conversar tranquilamente - disse o visconde, como
se acabasse de ler os pensamentos dela.
Ina sorriu e voltou a pr o chapu no banco de trs, dirigindo-se em 
seguida por um caminho de pedras at o restaurante, que, como o visconde 
tinha dito, era simples e pequeno.
Ele levou bastante tempo escolhendo a refeio e quando a comida veio, 
era simplesmente divina.
Mas Ina s tinha conscincia dos olhos do visconde fixados nela, e de 
como ele estava elegante, contrastando com aquele ambiente to diferente.
Simples como era, no percebia que, ele pensava o mesmo sobre ela.
A expresso dos seus olhos a deixava envergonhada, incapaz de olhar para 
ele.
O garom trouxe um vinho da colheita local.
Quando acabaram de almoar, tomaram caf, e o visconde saboreando ainda o 
conhaque, disse:
- Fiquei preocupado com o susto que voc levou esta manh com o gro-
duque, e quero certificar-me de que esse gnero de situao no volte a 
se repetir.
- Como poder impedi-lo? - perguntou, estremecendo de
100
medo. - Acredita que tia Rosamund aceitar o convite dele para ficarmos 
na vila, ou visitarmos o iate? - prosseguiu.
- Sua tia deve ter visto como voc ficou assustada, mas creio que seria 
mais fcil deixar que eu a proteja do gro-duque e de outros homens como 
ele.
Fez uma pausa, antes de continuar dizendo, suavemente:
- Voc  to bonita, Ina, que deve saber que, em todos os lugares aonde 
v, sempre haver homens que a acharo irresistvel e que desejaro 
possu-la.
- Voc est me assustando! No quero pensar que existem muitos homens to
horrveis e to pecaminosos como o gro-duque!
- Por que fala assim dele? O que sabe a respeito dele, a no ser que a 
assustou esta manh?
- Contei a tia Rosamund que voc tinha subido comigo para evitar que ele 
se aproximasse de mim. e ela me disse que ele era casado!
A maneira de Ina falar, o tom horrorizado de sua voz deixaram bem claro 
como era inocente, mas o visconde no conseguia deixar de suspeitar que a 
sobrinha de Rosie Rill devia conhecer o mundo muito mais do que
demonstrava.
- Voc deve entender que, quando o gro-duque e outros tantos mais vm
para Monte Carlo, ou vo para Paris, acham que esto livres das
obrigaes familiares que os moderam quando esto em casa. Viajam para se
divertir com qualquer garota bonita que encontrem.
Ina olhou para ele, espantada, antes de dizer:
- Pode ser que seja verdade, apesar de ser horrvel, que os estrangeiros 
tomem essas atitudes, mas no posso acreditar que um ingls, como voc,
fizesse o mesmo. 
- Suponha que um ingls como eu veja uma jovem muito linda e muito 
atraente, que ele considera irresistvel e a quem gostaria de proteger e 
cuidar. O que espera que ele faa?
Ina ficou confusa, mas logo respondeu:
- O bvio. Se for solteiro, casa-se com ela. Se for casado, tem que
esquec-la.
Afirmou aquilo com tanta convico, que demonstrava no permitir qualquer 
outra alternativa.
101
O visconde viu que o que esteve prestes a dizer iria deix-la 
profundamente chocada. Tinha que ir devagar, seno ela poderia fugir dele 
como tinha fugido do gro-duque.
Desviou o assunto, conversando sobre La Turbie, e quando pagou a conta, 
foram at as runas, velhas colunas deixadas pelos romanos, que brilhavam 
com os raios de sol.
- Se elas pudessem falar! Que coisas interessantes no teriam para nos 
contar! - disse Ina.
- Voc se interessa mesmo por histria? - perguntou o visconde, 
lembrando-se de que poucas das mulheres que tinha conhecido tinham algum 
interesse verdadeiro por histria.
- Papai e eu costumvamos viajar pelo mundo, em pensamento. No tnhamos 
dinheiro para ir a Roma, mas visitamos os palcios, as igrejas, as fontes 
e todos esses lugares bonitos que foram sendo criados atravs dos 
sculos, da mesma forma que visitamos a Grcia.
Passado um pouco, continuou:
- Ficamos maravilhados com tantas coisas belas, tal como milhares de 
peregrinos, antes que fossem destrudas pelo tempo.
Pelo tom enlevado da sua voz, o visconde percebeu o que tudo aquilo 
representava para ela.
Conduziu-a para casa pelas curvas tortuosas da estrada que ia para Monte 
Carlo, sem ter conseguido dizer a Ina o papel que queria desempenhar na 
sua vida.
O pior  que podia apostar que ela no fazia a menor ideia das suas 
pretenses.
Comeou a achar estranho e fascinante ela ser to diferente de todas as 
mulheres que j havia conhecido.
Tentava seguir o exemplo do pai, que, quando era jovem, tomara uma linda 
bailarina como protegida, mas ela era to burra que logo se aborreceu, e 
o caso no durou mais de seis meses.
Ento voltara suas atenes para as garotas do teatro de variedades, 
muito mais sofisticadas e atraentes que as atrizes de qualquer outro 
teatro de Londres.
Muitas delas passaram por suas mos, mas ele acabava sempre por se cansar 
de ouvir as mesmas conversas banais.
102
Eram to previsveis que no precisavam abrir a boca para ele saber o que 
iam dizer.
Ina, apesar de to jovem, era um estmulo para a sua mente, com suas 
perguntas inteligentes.
Pensou consigo mesmo que tinha que dar "um polimento" nos seus 
conhecimentos gerais e de histria, principalmente para no passar pela 
vergonha de no saber responder a alguma pergunta que ela fizesse.
Chegaram a Monte Carlo por volta das quatro horas, e quando parou o carro 
na porta do Hotel de Paris, o visconde disse:
- Verei voc esta noite. vou sugerir a sua tia que me deixe tomar conta 
de voc, enquanto ela joga no cassino. Talvez possamos ir danar em 
qualquer lado.
- Danar comigo? Seria emocionante! Mas, e se eu no souber danar to
bem quanto voc?
- No acredito que me desaponte - afirmou o visconde, sorrindo. - Cuide-
se bem, at nos vermos de novo.
- Claro, e obrigada, muito obrigada por este dia to maravilhoso. No 
tenho palavras para lhe dizer como me diverti.
- Fico muito contente - afirmou o visconde, fitando-a nos olhos e 
desejando desesperadamente beij-la na boca.
Ela entrou no hotel e ele desceu para o cais, onde o iate de seu pai, The 
Mermaid, estava ancorado.
Queria convidar Ina e talvez a tia, se desejasse acompanhlos, a dar um 
passeio pela costa.
Estacionou o carro e subiu a bordo, onde o capito o aguardava.
- Boa-tarde, milorde Estava esperando pelo senhor.
- Talvez eu saia com o iate, amanh - disse o visconde, passando a 
combinar com o capito o roteiro e a comida que devia ser encomendada 
para o almoo.
Queria que fosse ainda melhor que a que tinham desfrutado nesse dia.
Imaginou a excitao de Ina, inspecionando o iate, que viera do estaleiro 
h apenas seis meses e era equipado com os mais modernos acessrios.
Depois de terem tudo resolvido, o capito disse:
Se quiser ter a bondade de vir at a ponte de comando,
103
milorde, gostaria que visse os binculos que encomendou em
Londres e que chegaram ontem.
- timo! Ia mesmo perguntar se j tinham chegado.
Saram do convs, e chegando  ponte o capito entregou-lhe um par de 
binculos dos mais potentes e modernos que se fabricavam.
O visconde experimentou-os, focalizando o mar e depois o topo da montanha 
que dominava o principado.
Viu as runas romanas que tanto tinham emocionado Ina,
lembrando-se do interesse que ela demonstrara e das perguntas que fizera 
sobre a ocupao romana, mas que ele pouco esclarecera, uma vez que, 
praticamente, desconhecia o assunto. Tinha que comprar um bom livro sobre 
a histria de Monte Carlo.
O capito, que olhava as pessoas na cidade com o outro par de binculos, 
disse:
- No posso acreditar, milorde!
- O que foi?
- Acabei de ver uma jovem descendo do desfiladeiro. Ela deve ter estado
na capela de Santa Devota.
O capito parecia preocupado, ao continuar:
- Tenho a certeza de que estava sozinha, mas dois homens que se parecem
com os russos do iate Tzravitch, que est ancorado perto daqui, a
foraram a entrar numa carruagem. Ela estava tentando resistir.
- O que  que voc est dizendo? - perguntou o visconde, energicamente.
- Olhe, a vem a carruagem, dirigindo-se para o cais prosseguiu o 
capito, apontando para a estrada.
O visconde seguiu a direo que ele apontava com o dedo.
Viu uma carruagem fechada passando pela frente a toda velocidade e indo 
para um estacionamento mais para baixo.
O capito continuava seguindo a cena, e disse:
- Pode ser que eu me engane mas aqueles dois eram membros da tripulao 
do iate Tzravitch, que pertence ao groduque Ivor. O visconde ficou
alarmado, e, focalizando bem os binculos,
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viu os dois marinheiros, altos e fortes, empurrando Ina pela rampa de 
acesso ao iate.
No havia dvida de que era ela, debatendo-se para conseguir fugir.
Soltando uma exclamao de raiva, o visconde pousou os binculos e saiu 
correndo o mais depressa que podia.
Mas levou quase um minuto at descer a rampa que ia dar no cais, e, 
olhando para o Tzravitch, viu que j tinha levantado ncora e fazia-se 
ao mar.
Virou-se para o capito, que o seguia, ordenando:
- Siga-o o mais depressa que puder! vou pegar a lanchamotor!
A lancha, que tinha comprado ao mesmo tempo que o carro, estava ancorada 
junto ao iate.
Seguindo ordens do capito, dois dos seus marinheiros pularam tambm para 
a lancha, pondo-a a funcionar em tempo recorde.
- Voc vem comigo! - ordenou o visconde para um deles. Comearam a 
perseguir o Tzravitch, ouvindo j os motores
do The Mermaid comearem a funcionar. No demoraria muito tempo a se 
fazer ao mar.
Olhando para a espuma que a lancha deixava para trs, banhada pelo sol, o 
visconde disse a si mesmo que o gro-duque haveria de pagar por aquela 
afronta.
No restavam dvidas de que Ina tinha sido raptada.
" uma atitude bem prpria desse maldito russo!", - murmurou o visconde, 
furioso.
O gro-duque aparentava ser civilizado, calmo, cheio de boas maneiras, 
mas tudo no passava de mera aparncia. No ntimo, no passava de um 
bruto primitivo, que muitas vezes tinha um comportamento ultrajante, 
desafiando todas as regras sociais.
O visconde estava irritado consigo mesmo, por no ter dado a devida 
importncia ao medo que Ina sentira do gro-duque. Devia ter suspeitado 
que, fugindo dele, ela o excitara ainda mais, deixando-o decidido a 
possu-la a qualquer preo.
O gro-duque era famoso por seus casos de amor, to frequentes que no 
surpreendiam ningum em Monte Carlo.
Mas Ina, que ele agora reconhecia ser pura e inocente como
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aparentava ser, devia estar absolutamente aterrorizada com o que estava 
acontecendo.
"Tenho que salv-la!", murmurou, com os dentes cerrados de dio.
A lancha, com motor Priestman a querosene e ignio de alta tenso, voava 
a uma velocidade superior  garantida pelos fabricantes, mas o 
Tzravitch, barco mais antigo que o The Mermaid, tambm era bastante 
veloz, e tinha tomado uma boa dianteira.
- O meu iate j saiu do porto? - gritou para o marinheiro, mais alto que 
o barulho do motor.
- J, milorde, est se aproximando.
O visconde no sabia muito bem para que precisava do iate, mas achava que 
lhe daria um bom suporte e ajudaria a socorrer Ina melhor do que uma 
lancha de corrida.
Tenso, tentava aumentar a velocidade, sempre atento ao Tzravitch, 
imaginando como faria para entrar a bordo, ou, pelo menos, para se 
comunicar com o gro-duque.
Ento, de repente, viu algum com um vestido branco correndo pelo convs. 
Era inacreditvel!
Ficou observando atentamente. Era Ina, mas como poderia avis-la de que 
estava ali, na lancha?
Manobrou para se aproximar mais do iate, e nesse momento viu Ina subir na 
amurada do barco, hesitando ao olhar para as ondas turbulentas.
O gro-duque apareceu numa porta, vindo atrs dela. Ento, sem hesitar, 
ela se atirou ao mar.
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CAPITULO VII

Assim que o visconde deixou Ina no Hotel de Paris, ela subiu rapidamente 
as escadas.
Queria contar  tia as emoes do primeiro passeio de carro e da beleza 
de La Turbie.
Ficou muito desapontada quando abriu a porta do quarto e viu que estava 
vazio, e a sala tambm.
Desejosa de contar a algum a manh e o almoo delicioso, resolveu tocar 
a campainha para chamar Amy, mudando de ideia logo em seguida.
Estava to feliz, to grata por ter encontrado pessoas que eram 
maravilhosas com ela, que achou ser sua obrigao ir primeiro  igreja, 
agradecer a Deus.
No sabia se havia alguma igreja inglesa em Monte Carlo e, por outro 
lado, a capela de Santa Devota ficava perto do hotel.
Se andasse depressa, poderia ir e voltar a tempo de no preocupar a tia.
Desceu por uma escada lateral, normalmente usada para servio e bagagem, 
evitando assim a entrada principal do hotel, onde poderia encontrar o 
gro-duque.
L fora, ao sol, desceu depressa a colina que ia dar no cais, convencida 
de que, se no demorasse no caminho, ningum repararia nela.
No sabia, porm, que o gro-duque, que deixara o Hotel de Paris logo a 
seguir ao almoo, seguia numa carruagem atrs dela.
Subiu os degraus da pequena capela sem perceber que todos os seus 
movimentos estavam sendo observados.
A capela estava muito tranquila. Havia apenas duas mulheres rezando, 
ajoelhadas, esperando a vez de se confessarem.
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Ina dirigiu-se para o lado oposto do confessionrio, e ajoelhou-se, de 
olhos fitos no altar.
Queria apenas agradecer, como seu pai lhe tinha ensinado, mas deu por si 
pedindo a Deus que o visconde sentisse por ela um pouco do que j sentia 
por ele, que pudesse am-la.
"S um pouco, meu Deus, s um pouco... porque ele  maravilhoso demais 
para mim, apesar de eu saber que dificilmente terei algum significado na 
sua vida. Mas quando estivermos separados, quero que ele se lembre de 
mim."
Ficou rezando por algum tempo, e depois de sentir que tinha recebido 
resposta s suas preces, saiu da capela.
Estava to absorta em seus pensamentos que no percebeu que havia gente 
por perto.
Quando chegou  estrada, dois homens apareceram subitamente, um de cada 
lado.
Primeiro olhou para eles, surpreendida, depois consternada, ao ver que um 
deles gesticulava, apontando para uma carruagem, dizendo:
- Mademoiselle vem com a gente!
Pelo mau ingls, Ina pensou que fossem franceses, e respondeu:
- No, vou voltar para o hotel.
Nesse instante os homens a seguraram pelos braos e comearam a empurr-
la para a carruagem.
Ina gritava e se debatia violentamente, mas no adiantava, eram fortes 
demais para ela.
Antes que pudesse perceber bem o que estava acontecendo, estava no 
interior da carruagem, sentada no meio dos dois, no banco de trs.
- O que esto fazendo? Para onde esto me levando? perguntou, assustada.
Eles no responderam, limitando-se a olhar pela janela, para o cais, onde 
os iates estavam ancorados.
- Vocs no tm o direito de fazer isto! - insistiu Ina, mas, enquanto 
tentava pensar em alguma coisa mais para dizer, a carruagem parou em 
frente de um grande iate, com uma rampa de descida j abaixada at o 
cais.
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Um dos homens saiu da carruagem e comeou a empurr-la para o barco.
- No. no. Vocs devem estar enganados! - gritava, protestando, sem 
resultado.
O outro homem ajudava a empurr-la pela prancha, e enquanto ela se 
debatia, o chapu de Ina voou, sem que nenhum deles tentasse segur-lo.
Um puxando, outro empurrando, os dois homens foraram Ina a entrar no 
iate, levando-a para um salo onde, inicialmente, por causa do contraste 
de luz, ela no conseguiu ver nada.
Quando seus olhos comearam a se habituar ao escuro reparou no gro-
duque, que se levantava de um sof mais ao fundo. Agora, sabia quem a 
tinha trazido para bordo.
Ficou sem fala, por alguns momentos.
- Bem-vinda a bordo, adorvel senhora. Tenho esperado impacientemente 
para conversar com a senhora, e finalmente estamos a ss.
Ina respirou fundo, indignada.
- Como se atreve a trazer-me para c  fora?
Queria falar severamente, mas estava com tanto medo do gro-duque que sua 
voz soou jovem e assustada.
- Venha, sente-se que explicarei tudo - convidou ele, estendendo-lhe a 
mo.
- Eu. eu no posso ficar. Tenho que voltar para junto de minha tia 
Rosamund, que est  minha espera!
O gro-duque sorriu, antes de dizer;
- Quando contar a sua tia por que se demorou, ver que ela vai entender.
Ina atravessou o salo, aproximando-se e, olhando para cima, falou:
- Por favor, entenda que foi muito errado da sua parte trazer-me aqui de 
modo to assustador.
Fez uma pausa para tomar flego, e continuou:
- Talvez eu no devesse ter ido sozinha  capela... mas eu queria rezar.
- E por que estava rezando? Tenho muito interesse em saber os seus 
desejos. Prometo que lhe oferecerei tudo o que quiser.
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- Tudo o que quero  voltar para o hotel. Por favor, alteza. Tem que me 
deixar ir embora.
- No temos pressa. vou oferecer-lhe uma taa de champanhe e vai ver como 
se sentir melhor.
- No quero nada! - recusou, levando a mo  cabea e acrescentando: - 
Meu chapu voou enquanto seus homens me empurravam pela rampa.
- Eu lhe darei outro e, se quiser, mais outros mil. Encheu duas taas de 
champanhe, pondo uma delas numa
mesinha ao lado de Ina, antes de sentar-se junto dela.
- Vamos brindar? - disse, suplicante. A nossa felicidade juntos!
Ina estremeceu.
- No entendo o que Vossa Alteza quer dizer. - comentou, achando melhor 
no beber nada, com medo de que lhe fizesse mal.
Fingiu que levava o copo  boca e voltou a p-lo na mesa ao lado, 
dizendo:
- Por favor, Alteza, vamos ser sensatos... Eu tenho que voltar para junto 
de tia Rosamund. Talvez possamos estar juntos em outra ocasio.
A ltima coisa que queria na vida era voltar a ver o groduque, mas tinha 
que tentar sair daquele iate, porque no a deixariam fugir.
O gro-duque bebeu meia taa de champanhe, pousou o copo e pegou na mo 
de Ina, cujos dedos estavam bem fechados.
Sem dar importncia a isso, ele disse:
- Voc  encantadora. Na verdade,  mais bela do que qualquer outra 
mulher que conheo!
com ar libidinoso, prosseguiu:
- vou lhe dar tudo o que quiser neste mundo, Ina: vestidos, jias, peles, 
uma carruagem, cavalos e, quando sairmos de Monte Carlo, uma casa em 
Paris, onde seremos muito felizes.
Ina ficou olhando para ele, boquiaberta, depois conseguiu falar:
- No entendo por que Vossa Alteza quer fazer semelhante coisa. Pelo que 
sei tem uma esposa na Rssia que certamente ficaria muito contente em 
receber tudo isso.
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- Minha mulher tem tudo o que precisa, mas voc, minha pequena Ina, 
precisa da moldura certa para realar toda essa beleza.
- No posso aceitar nada do que quer me oferecer. Tomou coragem 
novamente, e num fio de voz, insistiu:
- Apesar de agradecer muito a generosidade de vossa Alteza, recuso o seu 
oferecimento... e tenho que ir embora!
Levantou-se de um pulo, e teria corrido para a porta se o gro-duque no 
a tivesse segurado plo pulso, mantendo-a cativa.
Enquanto ela tentava se libertar, ele levantou-se lentamente.
- No conseguir fugir - disse, suavemente. - Desejo possu-la, 
conquist-la, e com a sua recusa est tornando tudo muito mais excitante 
para mim. Ser muito melhor do que com as outras mulheres, sempre to 
complacentes.
Ina ficou to aterrorizada pela maneira como ele falava que teve a 
sensao de que acabava de levar uma descarga eltrica.
Antes, achava aquele homem ameaador, mas agora sentia por ele repulsa e 
terror.
Apesar de toda a sua inocncia, sabia que o que o gro-duque pretendia 
era pecaminoso.
S em pensar que ele podia toc-la, deu-lhe vontade de gritar de horror e 
nojo.
Ele comeou a pux-la para si, determinada e lentamente, saboreando a 
sensao de subjug-la.
Ina torcia-se, debatia-se, lutava para se libertar, mas cada vez estava 
mais prxima, at que, com a outra mo, ele a agarrou, mantendo-a 
prisioneira por duas tenazes de ao.
Desesperada, ela tentava empurr-lo, mas o gro-duque, soltando uma 
risada rouca, mostrou que a sua resistncia s servia para excit-lo e 
diverti-lo.
- Deixe-me ir! Deixe-me ir! - gritou, virando a cabea de um lado para 
outro, tentando evitar que ele a beijasse e sentindo aquela boca 
asquerosa roar insistentemente no seu pescoo, incapaz de capturar seus 
lbios.
Ento, enquanto ainda se debatia, sentiu os dentes dele mordendo a sua 
pele suave! Ficou imobilizada pelo terror, e ele comeou a acariciar seus
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seios, queimando sua pele atravs da fina seda do vestido, com mos que 
mais pareciam patas de animal selvagem.
- Vamos para a minha cabine. Quero apert-la junto a mim, ensin-la a 
amar. Ser uma aula muito excitante!
A voz, rouca e profunda, soava como a de uma fera selvagem.
Abraando-a com fora, o gro-duque forava Ina a encaminhar-se para a 
porta.
Mas ela preferia morrer a permitir que ele fizesse o que pretendia.
Ele a empurrava, apressado, louco para possu-la.
Ina, apavorada, aterrorizada, jurava que, se ele conseguisse o que 
queria, no iria continuar viva, mas o medo no a deixava pensar com 
coerncia.
O gro-duque abriu a porta do salo.
Ina comeou a rezar desesperadamente, para o pai, para Santa Devota e 
tambm para o visconde.
Parecia ver o seu rosto atraente olhando para ela, e sentiu que s ele 
poderia salv-la.
"Salve-me! Salve-me! Oh, meu Deus, permita que ele me salve! "
E, numa rao de segundo, a oportunidade surgiu.
O gro-duque, para poder passar pela porta, teve que solt-la. Ina, com 
uma fora at ento desconhecida, libertou-se e correu para o convs. 
Subindo pela amurada e firmando-se na ltima barra de ferro, olhou para o 
mar.
Se se atirasse dali, morreria certamente, uma vez que no sabia nadar.
Nesse momento, ouviu o gro-duque gritar:
- Venha c, Ina, no seja tonta! Sem hesitao, atirou-se  gua.
O visconde, que a tudo assistia, levantou-se da lancha, tirou o casaco e 
os sapatos e mergulhou tambm, enquanto o marinheiro tomava rapidamente o 
seu lugar no comando do barco.
Nadando com vigorosas braadas, dirigiu-se ao local onde Ina cara, 
receando que ela no soubesse nadar e que, com a violncia do choque na 
gua, tivesse desmaiado.
Ina voltou  superfcie, poucos metros  frente dele, que logo a segurou, 
vendo que estava desacordada.
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Do iate, que, apesar de ter os motores desligados, deslizava suavemente,
ouviam-se gritos, e algum atirou uma bia.
Ignorando os gritos de ajuda, o visconde nadou de volta para a lancha, 
segurando Ina com firmeza, mantendo-lhe a cabea fora da gua.
Ela era to pequena e leve que no precisava fazer muito esforo.
Alm do mais, como estava inconsciente, era muito mais fcil de segurar 
do que uma pessoa acordada e em pnico.
O marinheiro ajudou a coloc-la na lancha, seguida pelo visconde, que 
ouvia os berros furiosos do gro-duque, a bordo do Tzravitch.
Sem lhe dar importncia, dirigiu a lancha para o The Mermaid, que ainda 
estava um pouco distante.
Quando se afastava, olhou para trs e viu um salva-vidas do Tzravitch 
sendo colocado na gua.
No era provvel que tivesse motor de popa, mas de qualquer forma a sua 
lancha era muito mais rpida que qualquer outra que estivesse em Monte 
Carlo.
Chegaram ao The Mermaid com Ina ainda desacordada. 
Levou-a para a cabine principal, e o capito, formado em primeiros 
socorros, seguiu-os.
O visconde, depois de ter deitado Ina no cho, foi ao banheiro trocar de 
roupa e vestir um roupo.
Voltou para junto de Ina, que o capito j tinha envolvido em vrias 
toalhas e estava tratando.
- Ela ainda est inconsciente, milorde, mas creio que foi apenas o choque 
e a violncia da queda na gua. O pulso est firme.
- vou deit-la na cama, depois pode examin-la melhor.
- Certamente, milorde. Deseja voltar para Monte Carlo?
- No. Informe o marinheiro que ficou na lancha de que vou escrever uma 
carta para ele entregar. Entretanto, navegue lentamente ao longo da 
costa.
- Muito bem, milorde.
O capito saiu da cabine, e o visconde ajoelhou-se ao lado de Ina.
com o cabelo e a roupa molhados, ela parecia uma ninfa sada do mar.
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com mos experientes, ele a despiu, pensando que era a primeira vez que 
despia uma mulher completamente inconsciente.
Tentando no pensar na beleza de Ina, nem na perfeio do seu corpo de 
deusa grega, enxugou-a carinhosamente com as toalhas e deitou-a na cama 
com todo cuidadcu.
S ento ficou olhando para ela por um longo momento, admirando o seu
rosto plido, onde os clios negros sobressaam naquela pele linda e
branca.
Estava to bela, apesar da expresso de infelicidade ainda estampada no 
rosto, que mais do que nunca ele sentiu uma vontade louca de beij-la, 
at faz-la recobrar de novo a conscincia.
Reprimiu-se, contudo, e cobrindo-a com um lenol, foi at a porta chamar 
o capito;
- Sua paciente est pronta, capito. vou escrever uma carta que quero que 
seja entregue em Monte Carlo.
- Muito bem, milorde. Ficarei com a jovem at o senhor voltar, mas no 
creio que ela acorde to cedo.
Sem responder, o visconde dirigiu-se apressadamente para o salo, onde 
havia uma escrivaninha.
Pegou numa folha de papel de carta gravada com o nome do iate e escreveu:
Estimada lady Rosamund,
Ina foi raptada pelo gro-duque Ivor e levada  fora para o iate dele, o 
Tzravitch. Conseguiu fugir, atirando-se ao mar, de onde a salvei.
No est ferida, apenas inconsciente, e vou lev-la para Villefranche, 
para ficar com minha tia-av, a duquesa de Wrexham, que tem uma vila 
perto da cidade e uma enfermeira formada permanentemente em casa.
Irei visit-la amanh  noite para lhe dar notcias de Ina e discutir o 
seu futuro.
Sinceramente seu,
Victor Colt.
Colocou a carta num envelope endereado a lady Rosamund, Hotel de Paris, 
e disse ao comissrio para entreg-la ao marinheiro
114
da lancha, com instrues de faz-la chegar ao seu destino o mais
depressa possvel.
Depois voltou para a sua cabine, mandando o capito seguir para 
Villefranche a toda velocidade.
Vestiu-se convenientemente e sentou-se na beira da cama, olhando para 
Ina.
Levaram quase duas horas para chegar ao porto de Villefranche, onde o 
visconde mandou um marinheiro  terra avisar a sua tia que ia para a casa 
dela com uma visita que, no momento, estava doente.
Pedia-lhe tambm para mandar uma carruagem que os levasse at a vila.
Passava das oito da noite quando finalmente informaram ao visconde que a 
carruagem estava aguardando no cais.
Quinze minutos depois, ele desembarcou Ina, deitando-a suavemente no 
banco de trs.
Uma velha enfermeira sentou-se no banco oposto, e seguiram pela Upper 
Corniche Road at a vila da duquesa.
As estrelas comeavam a despontar no cu, mas o visconde s tinha olhos 
para Ina, preocupado por ela estar com uma aparncia to fraca.
Quando chegaram  vila, levou-a para um quarto que j estava preparado
para ela, no andar de cima.
- Acha que miss Westcott ficar boa? - perguntou  enfermeira, que 
trabalhava para a tia h vrios anos.
- Ela  jovem, e os jovens so muito resistentes, milorde. No creio que 
haja razo para se preocupar.
Depois de ter deitado Ina na cama, desceu para ver a tia, uma senhora de 
idade, parcialmente paraltica, que vivia sozinha h oito anos.
- Que surpresa, Victor! - exclamou a senhora, estendendo as mos, mal ele 
entrou no quarto.
A duquesa fora uma mulher muito bonita, mas desde a morte do marido, 
nunca mais tinha gozado de boa sade.
No gostava de ficar em segundo plano, e a partir do momento em que o 
filho herdou o ttulo e a nora passou a ser a duquesa mais importante, 
ela se retirou para o sul da Frana, onde moravam tantos ingleses.
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Ali, passou a reinar como uma rainha, segundo dizia o sobrinho para 
arreli-la.
O visconde inclinou-se para beijar-lhe primeiro a mo, e depois o rosto, 
antes de sentar-se a seu lado e contar tudo o que tinha acontecido a Ina.
- Nunca ouvi uma histria to vergonhosa! - exclamou a duquesa. - Mas 
todos os gro-duques, como so reais e muito ricos, acreditam que 
governam o mundo e que convenes sociais no devem ser aplicadas a eles.
- Gostaria de desafi-lo para um duelo, mas no posso, porque provocaria 
um escndalo! - disse o visconde, furioso.
- Se o fizesse, arruinaria de vez a reputao dessa pobre moa! 
Aparentemente, voc a salvou, ou melhor, ela mesma se salvou, e agora, o 
melhor que tm a fazer  esquecer o incidente!
- Concordo plenamente com a senhora, tia Alice, e como sempre foi muito 
sensata, seguirei os seus conselhos.
A duquesa desatou a rir.
- Duvido muito! Sempre fez o que quis, Victor, o que  muito mau para
voc. Mas, da mesma forma que todas as outras mulheres tolas da sua vida,
como  to bonito, eu no consigo resistir-lhe!
O visconde deu uma gargalhada e, como fora avisado de que o jantar 
estaria servido dentro de meia hora, foi para o quarto tomar banho e 
trocar de roupa.
Ina sentia-se caminhando por um tnel escuro, com uma luz muito fraca
brilhando na sada.
Fazendo um esforo sobre-humano, abriu os olhos e viu um homem vindo em 
sua direo. Pensou que fosse o gro-duque e soltou um grito de terror, 
balbuciando, com a voz muito fraca:
- Salve-me!, Oh, meu Deus, salve-me!
- Ele a salvou! - respondeu uma voz profunda. - Voc agora est salva,
Ina, em completa e absoluta segurana. Nada de mau voltar a acontecer.
Era a voz que tanto desejava ouvir, a voz dele, to reconfortante.
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Virou o rosto contra a mo do visconde, como uma criana.
- Voc est salva. Durma, prometo que ningum lhe far mal.
Tentou se aproximar mais dele, mas voltou a cair na escurido do tnel, 
sentindo uma carcia leve na testa. Todo o seu corpo estremeceu.
- Bem, est com muito melhor aparncia esta manh! disse a enfermeira, 
quando Ina se sentou na cama, com os cabelos cados nos ombros.
- Estou bem, claro que estou bem! Posso me levantar?
- Se o mdico deixar, pode. Ele vir s onze horas.
- Por favor, diga-lhe que tenho me portado muito bem, tomando todos os 
remdios e comendo, apesar de no ter fome nenhuma.
-  melhor dizer a senhorita mesma. Tenho o pressentimento que ele 
permitir que almoce na varanda, com Sua Senhoria.
Viu que os olhos de Ina se iluminaram, como se milhares de velas se 
tivessem acendido.
Saiu do quarto, pensando que aquela moa maravilhosa estava apaixonada 
por um homem que, segundo a sua reputao, certamente lhe despedaaria o 
corao.
Suspirou, andando pelo corredor, sabendo que no poderia fazer nada para 
impedi-lo.
O visconde s tinha visto Ina por breves instantes na tarde anterior, 
depois de ter visitado Rosie em Monte Carlo. Assim que contou o que se 
passara, ela exclamou, furiosa:
- Como  que o gro-duque se atreveu a tomar uma atitude to ultrajante!
O visconde no disse nada, e depois de alguns segundos Rosie olhou para 
ele, dizendo:
- Acho que foi por minha causa. O que se podia esperar, quando a moa em 
questo  a sobrinha de Rosie Rill?
O visconde fez uma pausa, antes de dizer, calmamente:
-  sobre isso que queria conversar com a senhora.
- Permita que lhe diga primeiro uma coisa. Apesar de
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nunca ter imaginado que isso pudesse vir a acontecer, prometi csar-me 
com um homem que me ama h muitos anos, sem contudo nunca nos termos 
conhecido, at agora.
O visconde estava com um ar ctico, ao ouvi-la prosseguir
na conversa:
- O nome dele  sir Stephen Hardcastle, e, como no gosta da vida de 
sociedade, vamos morar em Devonshire, onde ele possui uma propriedade.
Fez uma pausa, antes de finalizar:
- Estou rezando para que Rosie Rill seja esquecida por todos, menos por 
ele. Ser o melhor que pode acontecer a Ina.
O visconde sorriu.
- Era o que eu queria conversar com a senhora, mas agora no h mais 
necessidade.
- Nenhuma. Percebi quais eram as suas intenes quando a levou para ficar 
com sua tia-av.
- vou amar Ina sempre, pois  a criatura mais adorvel que j conheci. 
Contudo, creio que  melhor que no nos voltemos a encontrar, pelo menos 
durante bastante tempo afirmou Rosie, suspirando.
- Concordo plenamente, e vejo, Rosie, que ningum mais poderia se retirar 
com mais graa e dignidade.
- Lady Rosamund para voc, daqui para a frente! E trate de no se 
esquecer! - ralhou Rosie, para arreli-lo.
O visconde beijou-lhe a mo.
Rosie mandou Amy fazer as malas de Ina, que o visconde mandaria buscar 
durante a tarde.
Depois foi visitar o pai, esperando um encontro desagradvel com lady 
Constance.
Foi um alvio quando soube que ela tinha ido para Monte Carlo com lorde 
Charles e no estava na vila.
Era muito mais fcil no ter que dar explicaes cara a cara, ouvindo uma 
srie de recriminaes.
Escreveu-lhe, portanto, uma carta, esclarecendo tudo e desejando que ela 
entendesse.
Ficou a ss com o pai, e quando voltou para a vila de sua tia, encontrou 
Ina acordada h pouco tempo, mas muito cansada.
O mdico estava satisfeito, e disse que, apesar de ela ter ficado
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em estado de choque, no havia mais causa para preocupaes.
Agora Ina s tinha que repousar bastante e no ter pressa em fazer nada 
cansativo.
O visconde jantou sozinho, mal a noite caiu, satisfeito porque assim 
podia estabelecer os planos para o futuro.
No dia seguinte, Ina foi at a varanda, onde ele a estava aguardando.
Estava encantadora, com o cabelo simplesmente preso num rabo-de-cavalo, 
que lhe dava uma aparncia jovem e inocente.
Parecia uma deusa grega, como o visconde tinha achado quando a despira no 
iate.
Usava um dos lindos e caros vestidos que a tia tinha comprado em Bond 
Street, que, em vez de tirar, realava ainda mais o seu ar de criana 
inocente.
Toda ela irradiava felicidade, de mos dadas com o visconde, sentindo as 
vibraes que vinham dele.
- Voc est melhor?
- Estou bem, obrigada, mas recebi ordens explcitas de me comportar como 
uma invlida. No entanto, estou to feliz aqui, e em segurana, que tenho 
vontade de danar nas nuvens, ou correr para o mar!
Mas, receando que estivesse sendo muito teatral, acrescentou:
- Como pde ser to gentil, trazendo-me para este lugar maravilhoso? A 
sua tia tem sido muito, muito meiga comigo.
Sem dizer nada, o visconde continuava olhando para ela.
- Antes de mais nada, tenho que lhe agradecer por ter salvado minha vida. 
Rezei para que isso acontecesse, mas nunca pensei que estivesse l. 
Acreditei que ia morrer.
O visconde levou-a para o sof que tinha mandado colocar na varanda, 
junto a uma mesa onde iam almoar.
Um toldo impedia o sol de incomod-los, mas o seu calor penetrava por 
todo o corpo de Ina.
- Quero que esquea tudo o que aconteceu com o groduque - disse ele 
suavemente. - Foi uma coisa que nunca devia ter acontecido e que, juro, 
no se repetir - afirmou, pegando-lhe na mo.
- Tive a impresso de que voc disse que eu estava salva,
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quando estive inconsciente. Foi ento que percebi que estava viva e que 
voc estava perto de mim. Nada mais me importava.
- Nada mais importa! - repetiu o visconde. - E agora, Ina, temos muito o 
que conversar. Eu tenho muitas coisas para lhe dizer.
Fez uma pausa, antes de acrescentar:
- Mas como tambm recebi ordens explcitas para no fatig-la, sugiro que 
almocemos primeiro.
Ina olhou para ele de soslaio, apreensiva com o que ele iria dizer.
Os criados trouxeram a comida e o visconde insistiu para que ela tomasse 
um copo de vinho.
Depois contou as suas aventuras com o Panhard e as dificuldades que 
tivera dois anos atrs, quando dirigira um carro pela primeira vez.
Ina ria-se, divertida, e o tempo parecia voar.
Os criados tiraram a mesa e eles ficaram a ss.
O visconde levou-a novamente para o sof.
- Queria perguntar se tia Rosamund est bem, e se no est zangada por eu 
estar aqui com voc.
- Estive com sua tia, e tenho novidades que voc vai gostar de ouvir.
Ina esperou, olhando para os olhos do visconde.
- Sua tia vai se casar com sir Stephen Hardcastle, que parece que a ama 
h muitos anos!
- Casar? Mas no imaginava. nunca pensei que tia Rosamund pudesse voltar 
a casar. Mas  uma excelente ideia! Assim no se sentir mais sozinha... 
nem ter saudade do teatro.
- Concordo, eles querem se casar imediatamente. Sua tia achou que voc 
compreenderia.
- Imediatamente?
- Ela partir de Monte Carlo com sir Stephen, e vo morar em Devonshire,
onde ele tem uma manso e terras.
Ina susteve a respirao, balbuciando:
- E eu? Tia Rosamund disse o que deveria fazer?
- Fiz uma sugesto que sua tia aprovou inteiramente. Antes que ele 
explicasse, pediu:
- Por favor. eu no quero voltar para Monte Carlo.
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Tenho medo de voltar a encontrar o gro-duque, ou outros homens como ele.
Pode conseguir que eu volte para a Inglaterra?
- Concordo que Monte Carlo no  lugar para voc, e pretendo lev-la para 
a Inglaterra, mas primeiro pensei em algo que pode interess-la.
Ina parecia confusa e, num fio de voz, disse:
- Eu j lhe disse que no sei fazer nada para ganhar dinheiro.
- Eu me lembro, mas no precisar trabalhar - disse o visconde, reparando 
que Ina ficava tensa.
Lendo os pensamentos dela, viu que estava pensando que ia oferecer-lhe 
dinheiro, e que ela recusaria.
- O que preciso saber  o que voc sente por mim - disse, com todo o 
carinho.
Ina esbugalhou os olhos, quando ele continuou:
- Sei que ficou muito assustada com o gro-duque, e por todo este mundo 
vai encontrar homens, desse tipo, que vo deix-la aterrorizada.
- Mas com voc eu sempre me senti em segurana. Virou o rosto para o
outro lado, para acrescentar, num tom
diferente:
- Sei que no posso ser um encargo para voc. mas prefiro os seus 
conselhos aos de qualquer outra pessoa.  muito difcil para mim saber o 
que posso ou no posso fazer, ou aonde posso ir, sem me meter em 
confuses.
Estremeceu, e o visconde viu que estava novamente pensando no gro-duque.
- Esquea-o! J lhe disse que tomarei conta de voc.
- Tenho tentado agradecer por isso, mas, quando for embora.
- Quem falou que eu ia embora sem voc? Ina olhou para ele, sem entender.
- Ina, o que estou tentando dizer  que quero que fique comigo para o 
resto da sua vida.
Por alguns instantes, seus olhos se cobriram de estrelas, to brilhantes 
que o visconde pensou que no poderia haver mulher mais bela e mais 
feliz, mas logo em seguida, achando que tudo no passava de um sonho, 
olhou para o mar e disse:
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- Eu no estou entendendo o que est sugerindo.
A sua voz refletia medo, o mesmo medo que sentira quando o gro-duque lhe 
oferecera vestidos, jias, cavalos e uma casa.
- Estou sugerindo - repetiu o visconde, carinhosamente
- que voc se case comigo, isto , se me ama!
Ina suspirou de felicidade, apertando a mo dele para se certificar de
que no estava sonhando.
- Est realmente me pedindo em casamento?
- No vejo outra maneira de cuidar de voc.
- No pode ser verdade! - balbuciou num sussurro.
-  verdade, minha querida - afirmou, abraando-a cheio de ternura e 
puxando-a para si. - E o que vou dizer tambm  verdade. Nunca, minha 
adorada, nunca pedi nenhuma outra em casamento, e nunca quis me casar, 
antes de encontrar voc.
- E... tem certeza absoluta de que sou a pessoa certa para voc?
Antes que ele pudesse responder, continuou:
- Eu o amo, claro que o amo! Amo voc mais do que tudo na vida, mas 
sempre vivi tranquilamente sem conhecer muita gente. Voc  to 
importante. Podia casar-se com qualquer uma dessas lindas senhoras que, 
estou certa, o amam tanto quanto eu.
- No creio que seja verdade. O nosso amor, Ina,  muito diferente do 
amor que essas lindas senhoras, como voc as chama, sentem por mim, ou 
por qualquer outro homem.
- Por que  diferente?
- Porque, desde o primeiro momento em que a vi, minha querida, soube que 
fomos feitos um para o outro - disse, pensando que Ina nunca poderia 
saber o que queria oferecerlhe, quando a levara para almoar em La 
Turbie.
No fora s por ser sobrinha de Rosie Rill que quisera darlhe a sua 
proteo. O mais importante era a luta que se travava dentro dele contra 
o medo de perder a sua independncia, a liberdade de voar de flor em 
flor, jogando fora as que murchassem, ou que j no o atrassem.
Mas Ina, como percebeu no instante em que a viu, o atraiu como um im.
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Nunca mais conseguiu deixar de pensar nela, durante todos os minutos do 
dia e das noites em que no conseguia dormir.
Quando a viu atirar-se ao mar, sentiu que no poderia perd-la. Se assim 
fosse, perderia algo precioso, to maravilhoso que se arrependeria para o 
resto da vida.
Seria como um homem a quem tivessem amputado um brao ou uma perna. No 
seu caso, o corao.
A partir da, soube que nada mais interessava, a no ser proteger Ina, 
cuidar dela e t-la para sempre a seu lado.
A soluo tinha sido muito fcil.
Primeiro porque Rosie ia se casar e desapareceria de cena, deixando de 
constituir um embarao, apesar de Ina no se dar conta disso.
Depois de casados, todos os seus amigos e parentes iriam aceit-la, 
esquecendo que era sobrinha de Rosie e que a me fora casada com um 
proco pobre.
Todos a aceitariam como neta do conde de Ormond e Staverley.
Sendo a viscondessa Colt e, mais tarde, a marquesa de Colt, os Ormonds 
ficariam encantados em receb-la.
No que lhe dizia respeito, nada disso interessava. Casava-se com Ina 
porque a amava.
Mas facilitaria a vida dela, e isso era o mais importante.
Na vspera, quando almoara com o pai, o marqus lhe contara que os 
mdicos de Monte Carlo o tinham aconselhado a no voltar para a 
Inglaterra.
- Dizem que o meu corao est uma desgraa, e os pulmes no esto muito 
fortes.
Deu uma risada, antes de acrescentar:
- Deve ser o resultado de uma vida de farras, mas no me arrependo nada.
- Lamento, meu pai - disse o visconde, com sinceridade.
- Eu sei, meu rapaz, mas a minha deciso vai afet-lo.
- Em que sentido?
- Pretendo passar a primavera e o vero aqui, e depois ir atrs do sol, 
mais para o sul, passar o inverno. De qualquer forma,  melhor que ficar 
naquele tempo frio e imprevisvel da Inglaterra. Como j  tarde para 
mudar, vou me divertir  minha
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maneira, e certamente no desprezarei nada agradvel, quei seja bom para 
mim, ou no! - finalizou, rindo.
O visconde sorriu. Seu pai ainda era um homem muito interessante, e na 
sua vida apareceriam muitas mulheres bonitas.
- Quero que voc tome conta de Colt Park e de todas as minhas outras 
propriedades. Sem dvida o far muito melhor do que eu. Na verdade, como 
voc sabe, nunca lhes dediquei muito tempo. H muito trabalho a fazer, e 
nem quero pensar que meus cavalos deixem de entrar nas corridas 
tradicionais. Espero que me escreva sempre que ganharem.
O visconde ficou em silncio por alguns momentos, depois disse:
- Sabe que o manterei informado de tudo, papai, e que no pouparei 
esforos para manter as propriedades no melhor estado possvel.
- Espero que arranje uma esposa para ajud-lo. Nunca fiz nada como deve 
ser, sem  ajuda de sua me.
-  exatamente o que eu ia dizer - respondeu o visconde. Agora, com Ina 
em seus braos, sabia que, como ele a tinha
ajudado, ela ia poder ajud-lo.
Ina tinha despertado dentro dele toda a nobreza e cavalheirismo, 
estimulava sua mente quando conversavam, era diferente, to diferente das 
outras que ele no sabia explicar nem para si mesmo.
As mulheres que tivera na vida estavam sempre prontas a extorquir-lhe 
alguma coisa, mas em troca, alm do corpo, pouco lhe tinham oferecido.
Devia ser algo relacionado com a pureza de Ina, que o tinha transformado.
Para ele, Ina j era uma estrela que iluminava o caminho que ele seguiria 
por toda a vida.
Estreitou-a junto ao peito, sentindo que ela tremia da mesma excitao 
que ele estava sentindo, e no de medo.
com todo o carinho, fez com que ela o fitasse, com os lbios tremendo e 
um olhar tmido, ao ouvi-lo dizer:
- Sonhei tanto com este momento!
Seus lbios mantiveram os de Ina cativos, num beijo de incio terno e 
gentil, e que aos poucos foi-se tornando mais possessivo
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e ardente, diferente de qualquer outro beijo que tivesse dado em outra 
mulher.
com Ina, aquele beijo partia do corao e da alma, dando uma sensao to 
intensa, to divina que era um xtase que os levava aos cus,
- Eu o amo - murmurou Ina. - Eu o amo, mas ainda no consigo acreditar 
que voc realmente me ame.
- vou levar muito tempo para convenc-la, e  por isso, minha querida, 
que pensei passar a nossa lua-de-mel a bordo do The Mermaid.
Sorriu, apaixonado, continuando:
- Visitaremos os lugares onde voc esteve com seu pai em pensamento, para 
que possa transformar seus sonhos em realidade!
- Poderemos fazer isso?
- Iremos  Grcia, depois  Turquia, e atravessaremos o canal de Suez, a 
caminho do mar Vermelho.
Ina soltou um pequeno grito de alegria, e ele prosseguiu:
- H tantas coisas deste mundo que quero que voc conhea, minha adorada! 
Ns estaremos vivendo num mundo
muito nosso, um mundo de amor, onde ningum nos perturbar.
- Estou sonhando. Sei que estou sonhando! - sussurrou Ina. - Por favor, 
beije-me outra vez, antes que eu acorde.
O visconde deu uma risada cheia de ternura e voltou a beijla, desta vez 
um beijo ardente e possessivo, como se estivesse com medo de perd-la.
S quando os dois estavam quase sem flego e Ina escondeu o rosto de 
encontro ao ombro dele  que o visconde disse carinhosamente:
- J tratei de tudo para o nosso casamento. Foi fcil, porque, como meu 
pai tem uma casa em Paris, eu tenho visto de
residncia na Frana, e assim no teremos as mesmas delongas
que haveria na Inglaterra.
Para os dois, no importava o local onde se realizasse o casamento, desde
que se tornassem marido e mulher.
Dois dias depois, despediram-se da duquesa, que ficou radiante com o
casamento deles.
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Quando entraram a bordo do The Mermaid, Ina estava feliz como uma 
criana.
-  um naviozinho adorvel! - exclamou.
- Era o que eu queria ouvir. Meu pai o ofereceu a ns como presente de 
casamento, porque fui eu quem supervisionou a sua construo e instalei 
todos os modernos equipamentos que estou ansioso para lhe mostrar.
- E que eu estou louca para ver.
Ina estava linda, com um elegante vestido branco que escolhera entre os
vestidos que Rosie havia oferecido.
Na cabea, trazia um magnfico vu de renda que a duquesa tinha usado no
seu prprio casamento.
Ela tambm ofereceu a Ina uma tiara, dizendo, ao ouvir os protestos da 
jovem:
- No ter mais utilidade para mim, minha querida. Costumava us-la 
quando meu marido era vivo. Espero que lhe traga sorte tambm, porque eu 
fui muito, muito feliz.
- Como posso ter mais sorte do que casando-me com um homem to
maravilhoso? - perguntou Ina, radiante de alegria.
A duquesa olhou para o sobrinho. Como ele tinha mudado, desde que se 
apaixonara por aquela criana encantadora e inocente!
Era uma tristeza notar o cinismo da sua voz, no passado, e odiava o 
trejeito sarcstico de seus lbios, sempre que falava sobre alguma mulher 
bonita.
Agora via nele uma sinceridade que nunca havia existido.
- Eles sero felizes - disse para a enfermeira, quando os dois foram 
embora da vila.
O visconde mostrou todo o iate a Ina. Nunca se sentira to feliz.
Assim que comearam a sair do porto de Villefranche, levou Ina para 
baixo, fazendo-a entrar numa cabine que ela no tinha visitado, mas onde 
estivera quando fora salva do mar.
Agora, estava repleta de lrios, rosas, gladolos e orqudeas, vindas do 
mercado de flores de Nice.
- Como pode ter comprado tudo isto para mim?
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- Se eu pudesse, comprava o sol, a lua e as estrelas para voc tambm!
Ina olhou para as flores, encantada, e ele acrescentou:
- A ltima coisa que minha tia e a enfermeira disseram foi que eu tenho 
que cuidar bem de voc e obrig-la a descansar bastante. Por isso, agora 
voc vai se deitar um pouco. Ainda falta bastante tempo para o jantar - 
disse, sorrindo ternamente.
- Eu no quero ficar longe de voc! - protestou Ina.
- Isso est fora de questo. Ina entendeu e corou.
- Eu no pensei... - comeou a dizer, mas o visconde a interrompeu.
- Minha adorada, minha pequenina e perfeita esposa, tenho muito que 
ensinar-lhe sobre o amor, e prometo que terei todo o cuidado, mas desejo
voc e parece que estou h sculos esperando para t-la em meus braos,
tornando-a minha.
Ina riu de tanta felicidade, e quando ele lhe tirou a tiara, o vu e
desabotoou o vestido nas costas, disse:
- Voc est me deixando encabulada.
- Esta no  a primeira vez que a dispo.
Olhou para ele, envergonhada, e o visconde explicou:
- Quando a salvei do mar, coloquei-a na lancha e depois trouxe-a para 
esta cabine. Tive que deit-la no cho, porque voc estava encharcada.
- Devia estar com uma aparncia terrvel!
- Pensei que voc fosse uma ninfa, mas quando tirei suas roupas molhadas, 
fiquei sabendo que no era uma ninfa, e sim uma deusa do Olimpo!
Desta vez, Ina ficou com o rosto em brasa, e quando o vestido deslizou 
para o cho, chegou-se mais para ele, dizendo:
- Por favor, no olhe para mim, seno vai ter uma desiluso.
- Nunca poderei ficar desiludido com um corpo to lindo. At as flores se 
curvam perante voc, incapazes de tanta perfeio.
- Como pode pensar desse modo?
- vou mostrar-lhe o que penso e o que sinto - disse o visconde, 
levantando-a nos braos e levando-a para a cama.
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Ina ficou deitada, olhando as flores que perfumavam o ar com sua 
fragrncia deliciosa.
O iate deslizava suavemente no mar calmo e, quando o visconde passou os 
braos  volta de Ina, puxando-a para si, seu corao batia 
descompassadamente, cheio de paixo.
A sua longa experincia aconselhava-o a se controlar e ser muito meigo, 
para no a deixar assustada.
Beijou-lhe a testa, os olhos, o nariz pequenino e depois o pescoo macio.
Ina, com os lbios entreabertos, aguardava o seu beijo, mas ele beijou 
primeiro os seus seios, fazendo-a estremecer de prazer, antes de lhe 
beijar a boca.
Quando seus lbios se encontraram, ele sentiu o mesmo fogo que o 
consumia, o mesmo xtase, fruto de um perfeito amor.
Um amor to puro e to sagrado que nada poderia macul-lo.
Possua a beleza das flores, do sol, das estrelas e da lua, a beleza que 
vinha do prprio Deus e que era sagrada, bem diferente da fraqueza e 
perverso humanas.
- Eu amo voc - murmurou Ina. - Como poderei agradecer a Deus por me ter 
feito encontrar voc e ter feito com que me amasse tambm?
- Eu amo, adoro, venero voc - disse o visconde, com voz rouca.
- Voc  maravilhoso. to maravilhoso.
A voz de Ina estava rouca e ofegante, e ela sentia sensaes que lhe eram 
totalmente desconhecidas.
- Voc  minha. completamente minha, para sempre. Ento tornaram-se uma 
s pessoa.
Aquele amor imenso que sentiam um pelo outro haveria de proteg-los, 
livr-los de toda a maldade.
O visconde sabia que era um amor que duraria para alm das suas vidas na 
terra, prolongando-se na eternidade, onde, pela graa de Deus, 
continuariam unidos.

                            ****


QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das 
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de 
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e 
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do 
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo 
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
